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Lado a Lado. Side by Side.



​Estive a convite da Embaixada da Índia, por meio da figura de seu excelente Ministro-Conselheiro e poeta, Abhay K., em uma homenagem às poetas e poetisas em função do Dia Internacional das Mulheres, no 14º Chai com Letras. Algumas mulheres preferem ser chamadas de poetas, devido a seu espírito virago, daí a presença de mulheres poetas e poetisas.

Foi um encontro muito interessante, o mais lotado desde o começo dessa maravilhosa iniciativa de Abhay K., que tem reunido professores, intelectuais, diplomatas e literatos, além de poetas brasileiros. Dentre as mulheres, estavam presentes Ana Maria Agra, Claudia Falluh, Lucia Barbosa, Mathilde Rosa de Freitas Torres, que nos presenteou a todas com um poema especial, Miriam Fabiancic, esposa de diplomata, Alicia Silvestre, Kori Bolivia, Julliany Mucury e Elga Laborde, que nos encantou e surpreendeu cantando "Yo tenía 17".

Nessa oportunidade compartilhei com a audiência uma dúvida que me instigou durante a semana: haveria uma poesia diferenciada naquela que é escrita por mulheres?

Pareceu-me, ao ouvir as minhas convivas, que sim. Na nossa voz, nós atribuímos uma importância muito grande à família, à concepção, ao amor, aos momentos relacionais com o sexo oposto. Ali as várias poetas leram sobre o nosso papel, sobre a fúria do corpo feminino, sobre o amor proibido, que aos homens é muitas vezes banal. Por outro lado, também a poesia tem um efeito distinto sobre as mulheres. A nossa sensibilidade é aguçada pelos versos com muito maior facilidade; nas mulheres a poesia tem um propósito de soberania de si. Especialmente por sermos tão cobradas a refletir um papel e as expectativas sobre esse papel feminino, a poesia é tão necessária às mulheres, porque permite a nós definir e dizer quem somos, independentemente do que esperam os demais.

Também me recordei dos estudos da década de 1970 e de 1980, "A Casa e a Rua", um ensaio do Roberto daMatta e de outras antropólogas sobre espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Nesse trabalho, eles estudaram as figuras das mulheres nas cartilhas escolares, em que a mulher sempre aparecia até à soleira da porta, entregando ao marido a sua pasta, ao sair para o trabalho, situação na qual a criança observa o valor da família tradicional.

Hoje nem sempre é possível contar com essa família tradicional; nem sempre as mulheres podem viver apenas em casa, porque nem sempre os homens as querem sustentar ou permitir a liberdade nesse espaço. Também as mulheres já não se contentam apenas com os pequenos gestos e cuidados do lar, indispensáveis para a felicidade do indivíduo; elas também sentem necessidade de contribuir lado a lado com o homem nas suas dificuldades e desafios, solidariamente.


Por isso fiquei feliz em observar ali tantas mulheres naquele espaço de poesia criado pelo Abhay K., lado a lado com vários homens. Felicitei a todas e a todos, mas recordei que apesar de estarmos ali, lado a lado, ainda não fazemos uso desse espaço público de modo eficaz. Há menos mulheres em cargos públicos, há menores salários, e tantos outros números. O que nos impede de ocupar esse espaço de maneira efetiva?

Nossa voz feminina é mais aguda, menos grave. E quando uma mulher fala, quanta coisa se observa, antes de ouvir suas palavras! A roupa, os modos, o peso, a idade, o corpo... Apenas então, após essa sequência de tantos julgamentos e avaliações, é que se vai eventualmente ouvir o que a mulher tem a dizer. Poucas mulheres foram chamadas a ser protagonistas ou a se pronunciar objetivamente nas famílias e nas escolas. Portanto perguntei ali aos amigos presentes: o que é preciso fazer para que nós, mulheres, possamos participar de modo mais confortável nos espaços públicos? Certamente é indispensável que se mude o nosso modo de pensar. Aliás, essa é a política mais econômica para promover mudanças, porque mudar nosso modo de pensar não custa nada.

Nessa discussão, nós sempre costumamos valorizar os avanços, e terminar com uma frase adversativa: "mas ainda não conseguimos..." "Mas ainda há muito a fazer"... Felizmente a poesia não é um espaço de medidas parciais. A poesia é um espaço que nós, mulheres podemos criar e ocupar integralmente, porque na poesia nós estamos presentes por inteiro.

Declamei então um poema que escrevi para o Abhay, "Why Wars". Porque me inspirou que ele desempenhe tão bem e de forma harmoniosa suas funções como poeta e como diplomata. Ele bem recordou que o dever funcional do diplomata é manter a paz, e as sábias palavras de Neruda: "Poetry is an act of peace".

Também os poemas "Visita da manhã", que escrevi quando da visita do Papa Francisco a Auchwitz, "O dia de hoje, sempre" e "Inteira", um de meus favoritos, que compus para a nossa Ministra-Conselheira Ana Bierrenbach, em Londres. Dois desses poemas estão na linha do tempo da página #anapaulaarendtpoesia, no Facebook.

Em breve copiarei aqui neste post o link para a entrevista que cada mulher poeta ou poetisa gravou durante o encontro, que será publicado no YouTube.

Meus agradecimentos à Embaixada da Índia e votos de sucesso a Abhay K. em todas suas indispensáveis iniciativas!

Com carinho,

Ana Paula Arendt.

11 de março de 2017.


Interview at the Indian Embassy

I salute you. We are celebrating here the International Woman's Day. Besides being a woman, I am also a poet. As John Wayne would say, "poets gotta do what poets gotta do". What is poetry for me? Ferreira Gullar says poetry is about we cannot explain and about we try to explain. We live in such a hurry, we live in such a busy world, restless. And perhaps we are in need of stopping and looking at nothing, and seeing things people usually don't see. The flight of a bird, the laugh of a child, the breath of a lover. Poetry is grasping these things that are invisible and making of them real discoveries of the heart.

I guess women have advantages in grasping invisible, hidden things. We should all make use of this natural talent, of seeing things people don't, and try to put it in a poetic way, to put ourselves in a poetic path, a poetic walking, a poetic road. A road of beauty, a road of walking on hearts.

I guess poetry for me is also special because as a diplomat I live with concerns of State. And for me poetry is an important part of statecraft. Virgil did it, Homer did it, the Greeks had their poets, the Romans had their poets. Building a State involved poetry. Portugal had its poets, their holy dreamers. And in Brazil we have Pero Vaz de Caminha, and when he writes about "people who are not ashamed of showing their pudescences", he's making a statement about a whole culture, inspiring people. When he says "in this land everything grows", the idea of Brazil came up. I think poetry is also linked to history, to the image of ourselves.

Today people think poetry as an individual measure. An individual effort to make your experience universal, so that you won't feel so helpless. In this sense I think the individual poetry must be respected, we should have the human rights of the poet, the right of the verse to say. But I think also important that women should be concerned with their role in constructing ideas, not only looking at their individual experience, but also everything around them. The feminine perspective of what is important, of what people should feel. I hope you enjoy the poetry that I am going to read, in English and in Portuguese. First I am going to read to you a poem in English, "Why wars".

"Why wars

WHY wars, When you have words. Why wars, If you have nerves.

Why wars, when you can sleep Why wars, if scars are deep.

Why wars, if winter is coming Since waters are blue, and Sundays sunning

Why wars, if there's God's way With no obsessions, nor profits disarray With no distractions on future's day.

Whose wars, if there's nobody Who accounts for a children's broken story. Whose wars, if deads are gone And my lost heart just found someone.

Which wars, if love is here My friends aware and you're so dear. Which wars, for papers say And tell world's lost anyway.

But there's no war, there's just a rhyme Before completing we should ask why."

Visita da manhã

Hoje de manhã, a manhã veio me visitar Estendeu um tecido macio de folhas Sob os pés no chão de brincar Cobriu a calçada dura, bem grossa de cimento. Soprou nas árvores, das amuras levantou momento Levou minha saia, e o barco do lar Com nós lisos de barlavento.

A manhã veio mesmo que eu não quisesse Como o verso ressona escondido no alto da mesma prece Oscitando flores, folhas, vento. A manhã veio para me dizer Que hoje é outro dia, outro lugar, outro tempo.

O dia de hoje, sempre

Se apenas fosse o mundo,

Um lugar assim bem doce

Se apenas viesse ao mundo

Cada um que vivesse o que fosse

Se apenas fosse o mundo

Um lugar quieto, e num canto um pavio

Que ninguém jamais acendesse

Nem quisesse dar novos feitios.

Se apenas fosse o mundo,

Sem tirar, nem dar, nem pôr

Se apenas fosse o mundo,

E a só isso se desse valor!

E os homens não buscassem mais falhas,

E as mulheres não dessem pra ter

Se a gente entendesse, é passagem,

Mais cedo ou mais tarde se vai morrer

Poderíamos viver várias vidas numa prece,

E dizer tudo que sente o coração falar

Poderíamos saber o que viria,

Porque isso já não importará

Poderíamos amar todo dia,

Ser felizes no agora bem já.

Poderíamos dar nossas mãos, meu filho,

Para nunca mais soltar.

Inteira

Não recuso as partes boas, nem as ruins É inteira e com mão verdadeira que me faço em mim. Não escondo a parte ferida nem a que voa É sendo com tudo que há que existe a pessoa.

E melhor não ceder à razão quando ela não me belisca Mais suave é a instantânea arte que me pisca Em momentos rotatórios, súbitos e intermitentes Fogem e ressurgem quando a seta toca na gente.

Melhor não saber se é de aço ou de flor minha fé. Melhor é me dizer e acredite quem bem quiser. Tão bom é ser livre e viver partida numa boa Sem moral pra acirrar com quem viveu à toa.

Sem o juízo do outro, pretextos, condenações Vejo um caminho que cura bem desilusões Feito de verdade e razão, de arte e fé Nele anda a cultura e a palma por dentro a pé.

Não recuso as partes boas, até uso as partes ruins É inteira, ainda que eu não queira, que me faço em mim.



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