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Jabuticaba



Clara Arreguy nasceu em Belo Horizonte em 1959. Depois de trabalhar 16 anos no Estado de Minas, como repórter, crítica, cronista e subeditora, assumiu a editoria de Cultura do Correio Braziliense em 2004, onde permaneceu por cinco anos. Atuou também na editoria de Esportes. Depois de sair do jornal, foi cronista na revista Veja Brasília e também editora e redatora em órgãos do governo e empresas de comunicação. Em 2015 formalizou a Outubro Edições e, nesses dois anos, já publicou mais de 20 livros, entre os dela e os de outros autores. No momento, a escritora tem 13 livros publicados e pelo menos mais dois para serem lançados este ano.

Arendt. Obrigada por aceitar o convite para a entrevista, Clara. Dizem que, pra ser mesmo do Brasil, tem que ser jabuticaba: algo tão diferente que só existe por aqui. Conte um pouco para nós da Clara Arreguy escritora. Quando você começou a ser escritora como ofício? Você tem publicado livros infantis, contos? Quais seus favoritos?

Clara Arreguy. Sempre gostei de escrever, sempre trabalhei com a escrita, em minha profissão de jornalista, mas comecei o ofício de escritora quando escrevi meu primeiro livro, Fafich, uma memória sobre o movimento estudantil na virada dos anos 70 para os 80. Concluí o livro em 1997, mas só consegui publicação em 2005, mesmo ano em que foi editado meu primeiro romance, Segunda Divisão, uma ficção em torno do futebol. Com esses dois lançamentos simultâneos, senti que não havia volta no meu desejo de ser de fato escritora. Com o passar do tempo, intensificaram-se a produção de novos livros e sua consequente publicação. Hoje são 13 no total. E mais coisa vem por aí...

Estou com dois livros infantis publicados - Oit Labina e A Vovó fala tudo errado, um pronto para sair (A partida da Sorte) e um em processo de ilustração (Verde, vermelho, amarelo).

De contos, tenho um livro apenas, Sonhos olímpicos, que reúne 28 histórias inspiradas nos Jogos Olímpicos.

[Oit Labina=Tio Aníbal!]

Escolher livros favoritos da sua produção equivale a pedir para uma mãe escolher um filho... Não tenho favoritos, nesse sentido. São cada um uma parte de mim.

Arendt. Além de escritora, você também é jornalista, e soube que além de trabalhar na editoria de Cultura do Correio Braziliense, teve por muito tempo uma coluna de destaque, na última página da Revista Veja. Sobre que assuntos você escrevia, e como era sua rotina para dar conta de escrever toda semana?

Clara Arreguy. Escrevi na revista Veja Brasília durante os dois anos em que ela existiu, mas não era coluna semanal, era quinzenal. Os assuntos eram variados e tinham sempre que se referenciar, de alguma maneira, à cidade, à região, aos temas do Planalto e do cerrado. Fazia isso com um misto de poesia e humor, marcas do meu trabalho na crônica, e buscava no olhar sobre o cotidiano a inspiração para essa temática. Não era difícil produzir quinzenalmente, visto que tinha experiência na produção diária, dos tempos em que trabalhei nos jornais Estado de Minas (16 anos) e Correio Braziliense (5 anos). Quando a revista parou de circular, reuni as 40 melhores histórias no livro O planeta das flores amarelas.

"No túnel do tempo

Sou tão antiga, mas tão antiga, mas tão antiga, que nem me lembro da inauguração de Brasília, porque tinha apenas seis meses de vida. Dos anos cinquenta, nos quais vivi só dois meses, recebo do inconsciente coletivo ecos de memória: sofás de pé palito, eletrolas com rádio e toca-discos, arquitetura modernista de Niemeyer na minha Belo Horizonte natal, Cassino, Casa do Baile e Colégio Estadual passando um trator sobre o Neoclássico e o Art Déco.

Na minha infância, havia mulheres chiques. Usavam coques, vestidos longos, Helena Rubinstein, telefones em design hollywoodiano, sapatos de salto alto feitos com o mesmo tecido do vestido, toucas de banho estampadas para entrar no mar. Eram misses, mantinham busto e quadril na mesma medida, cinturinha de pilão. Tinham em casa piscina com bordas arredondadas, mas nadavam de boia na cintura.

Eram ricas. Minha mãe não. Mãe de família numerosa e pobre, tinha bom gosto, mas não chiqueza. Era linda, de cabelos pretos penteados, vestidos bem cortados, mas sempre largos, por causa da eterna gravidez, sorriso de belos dentinhos brancos. Comprava uniformes escolares às dúzias nas lojas de departamentos que começavam a dominar o comércio de rua na nossa cidade.

Era bonita, não chique. Chiquê, como se dizia, havia em Brasília. Embora a cidade ainda fosse lamacenta e poeirenta, conforme a estação, as mulheres eram chiques e provocavam inveja. Meu pai não quis vir pra Brasília junto com os pioneiros. Ofereceram gerência e salário, mas ele recusou. Queria continuar a dar aos filhos praia capixaba uma vez por ano, clube todo domingo, ensinamentos de sossego e liberdade – apesar da ditadura.

Eu sucumbi ao canto da sereia. Aceitei cargo, poder e dinheiro, mas rapidamente descobri o alto custo. Fugi a tempo, salvei-me do enfarte, dos vícios e do mau-caratismo. A culpa não era de Brasília, e sim das circunstâncias. Brasília me deu bicicleta, amor e letras. Me abriu seus vastos horizontes, mesmo nunca tendo sido eu uma de suas mulheres chiques. Democrática, Brasília me abraçou e amou, como eu a abracei e amei.

Brasília me deu muito mais que seus monumentais exemplares de fausto e mando. Me deu a feira da Ceilândia e o comércio de Taguatinga, me deu o parque do São Sebastião e

Sobradinho, me deu a região serrana de Vicente Pires e o Varjão, me deu toda a história dos peões pioneiros do Paranoá, cidade transplantada de um promontório para uma zona plana, distante da vista estonteante da barragem do lago.

Trago dos anos cinquenta lembranças do que não vivi; dos sessenta, saudades do que não quero de volta; dos setenta, ideais que nem sei se ainda se sustentam; dos oitenta, um jeito de corpo dado pela música popular brasileira sempre em evolução; dos noventa já nem me lembro mais; dos dois mil, o que será que ficou? E nos anos dez deste vigésimo primeiro milênio, esses que agora vivo em diálogo entre o eu e o mundo, sigo girando, girando, como num parquinho de diversões onde talvez tenha brincado na infância. Ou sonhado."

Clara Arreguy, "Planeta das flores amarelas".

Arendt. Você sabe que cheguei até você em função do livro publicado pela Outubro Edições, sua editora, de autoria do Presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE) sobre a Lucia Miguel Pereira, uma mulher à frente de seu tempo. Foi biógrafa de Gonçalves Dias e de Machado de Assis, além de amiga de Santos Dumont e personalidade muito admirada pelo Antonio Candido. O resultado foi um livro de ar delicioso, não apenas pelo estilo apurado do Fabio de Sousa Coutinho, mas também pelo manuseio. Um miolo sedoso em couché, edição impecável e capa nostálgica... As imagens saindo na lateral lembram aquelas obras do Victor Civita, da Abril Cultural, que tanto agradavam aos leitores na década de 1980, quando não havia internet ou leitura on-line. E, é claro, a biografada, além de ser uma biógrafa, é uma mulher interessante. O que você mais gostou no resultado final, nesse livro?

Clara Arreguy. Adorei o livro do Fabio Coutinho sobre a Lucia. Em primeiro lugar, pela personalidade ímpar de Lucia Miguel Pereira, uma mulher que nos honra a todas, pela força, coragem, inteligência, brilho, bondade. Em segundo, mas não menos importante, pelo delicioso texto do Fabio, bem escrito, bem apurado, fluente, estiloso no bom sentido. O livro traz o cuidado de acabamento que nós, na Outubro Edições, sempre procuramos, com revisão acurada e acabamento estético cuidadoso. Ficou show! Gosto de tudo nele!


Arendt. Eu vi que você também escreveu e publicou um livro infantil digno de nota, com um ilustrador de prestígio, contando uma história sobre uma avó e uma neta, de grande sensibilidade. Já o inscreveu nos concursos deste ano (UBE, Oceanos, Jabuti etc.)? O que há de especial nesse livro?

Clara Arreguy. "A Vovó fala tudo errado", este livro ilustrado pelo premiado Walter Lara, acabou de ser lançado. Ainda não o inscrevi em nenhum concurso. Não sei os outros, mas o Jabuti deste ano se destina aos livros lançados no ano passado. É um livro especial porque trabalhei nele durante dois anos. Estudava a melhor maneira de abordar a questão da demência senil com a delicadeza que o tema exige e com a máxima economia. Era importante enxugá-lo até o osso, até ele não dizer mais que o essencial. Creio que o mesmo se deu com a ilustração do Walter Lara, que conseguiu dizer o máximo com o mínimo de imagens, apenas as imprescindíveis. O resultado me emociona sempre e tem emocionado cada leitor, de qualquer idade.


Arendt. Você me contou que tem se dedicado não apenas a publicar livros, mas a fazer com que eles sejam lidos. Tem visitado escolas, participou ativamente da Feira do Livro, é contadora das histórias que escreve. Como uma borboleta aqui e acolá, vai levando o pólen das flores, para que haja mais delas. Não há tantos defensores da causa da leitura e cultura no Brasil quanto necessários, pelo puro prazer de movimentar escritores, leitores, gráficos... O que lhe faz sentir realizada ao escrever, editar e publicar um livro? Em alguma de suas visitas ou viagens, alguma história lhe tocou?

Clara Arreguy. Estar vivendo de livros e para livros é o que mais me realiza no momento. Escrevo, publico, vendo, divulgo, debato - os meus livros. Mas também viabilizo a publicação de outros autores, ajudo-os na concretização de sonhos, e vamos levando esse lindo movimento em direção às pessoas, sobretudo às crianças, para que o gosto pelo livro e pela leitura se multiplique dia a dia. Dar trabalho para escritores, designers gráficos, ilustradores, revisores, divulgadores, vendedores, gráficos, bibliotecários, potencializa ainda mais esse trabalho.

As histórias que vivenciamos são sempre tocantes: numa escola pública de periferia (Basevi, no Lago Oeste), a emoção dos meninos com o Oit Labina; numa escola da zona rural de Pirenópolis, a festa da meninada que vê ao vivo, pela primeira vez na vida, uma escritora; em Anápolis (GO), em Santa Maria (RS), em Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Vitória (ES), em Brasília (DF), por onde vamos e temos encontros olho no olho com leitores, vemos que tudo vale a pena. Mesmo a vida puxada de ser independente, trabalhar da manhã à noite, sábados e domingos, às vezes, sem intervalo... O abraço que recebi de um menino em Planaltina, outro dia, quando a mãe lhe disse que eu era escritora, valeu todo o cansaço.


Arendt. O que você acha que poderia melhorar no mercado editorial, para que a qualidade tanto dos livros quanto dos leitores seja maior? Você contou que, quando era jornalista do Correio Braziliense e colunista da Veja, era fácil publicar. Depois que saiu desses veículos, mesmo sendo a mesma pessoa, escrevendo com a mesma qualidade, isso se tornou mais difícil. Por que existe essa dificuldade no eixo comercial dos livros e revistas? Separa-se o joio e joga-se fora o trigo? Há modismos?

Clara Arreguy. Creio que o problema é do mercado como um todo. No capitalismo, mercadoria é o que vende. Uma pessoa famosa, em qualquer área de atuação, interessa mais ao mercado editorial do que um bom escritor. Não quero dizer com isso que não haja bons escritores fazendo sucesso, mas sim que o sucesso depende menos de sua qualidade literária. De fato, já despertei mais interesse nas editoras do que agora. Mas agora, que trabalho para vender meus livros, vendo mais do que quando publicava por editoras. Então, meu sucesso depende mais de mim e do meu trabalho do que da sorte de ser "descoberta". Não creio que seja modismo, e sim a lógica da mercadoria vendável.

Arendt. Notei dois movimentos sendo divulgados em Brasília este ano, iniciativas as quais você também celebrou, a Movida Literária e o Mulherio das Letras. De propósitos bem distintos, eles têm em comum o intuito de falar sobre o ato de escrever, de partilhar a experiência da criação literária. Você faz parte da Casa de Autores, que imagino tenha também um propósito similar, e sei que você está escalada para o encontro do Mulherio das Letras em João Pessoa. O que você acha dessas iniciativas, e o que espera encontrar por lá?

Clara Arreguy. As iniciativas comprovam que só vamos furar o bloqueio do mercado com nosso trabalho intenso de promover eventos para nos mostrar, nos dar a conhecer. Seja pela Casa de Autores, pela ANE, pela Movida Literária ou pelo Mulherio das Letras, a ordem do dia é nos divulgarmos, nos promovermos, alcançar o leitor. No caso do Mulherio, tem ainda o desafio de dar visibilidade às mulheres, ainda mais invisíveis em meio à invisibilidade geral da literatura. Nós, do Mulherio DF, pretendemos mostrar em João Pessoa que Brasília tem literatura da boa, com excelentes escritoras mulheres. E tentar quebrar os preconceitos e estereótipos que ligam nossa cidade a maus comportamentos de maus políticos enviados para cá por todos os estados do país.

Arendt. Há uma escrita feminina? Mulher escrevendo é diferente do homem?

Clara Arreguy. Acho que sim, que mulher escrevendo é diferente de homem. Mas nem sempre percebemos isso quando estamos em processo de criação. Não creio que tenhamos temáticas ou estilos só nossos, mas somos mulheres quando fazemos o que fazemos, e só nós sabemos o que é ser mulher, o que há de dor e delícia em ser o que somos.

Arendt. Obrigada pela visita, Clara, foi uma delícia este café da tarde!

Clara Arreguy. Eu que agradeço, Ana Paula. Delícia de café, rosca, pão de queijo, chocolate, prosa inteligente, livros e filhos! Tudo de que mais gosto nesta vida!


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