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DOLCE & DUCCI



D. G. Ducci, pseudônimo de Daniel Guilarducci, diplomata, bibliotecário e escritor. Graduou-se também em História, pela Universidade de Brasília. Atualmente trabalha no Departamento Cultural do Itamaraty e é coeditor no site de críticas de cinema Razão de Aspecto (razaodeaspecto.com)

Arendt. Ducci, obrigada por esta entrevista deliciosa e pelo seu poema inédito que publicamos a seguir. Conte-nos: quando você começou a escrever poesia?

D. G. Ducci. Aos 15 anos, por insistência de um amigo que já escrevia. Eu já gostava de escrever, fazia uns roteiros de histórias em quadrinhos. Mas até então nunca havia pensado em versos.

Arendt. E alguém chegou a lhe incentivar a publicá-los, após ler seus primeiros poemas? Quando passou a adquirir seus versos para si mesmo? Por que os poetas despertam no meio do sono para febrilmente escrever poemas?

D. G. Ducci. A primeira publicação não demorou muito. Uma das minhas primeiras poesias foi publicada em uma coletânea editada pelo próprio colégio onde eu estudava. Um ano depois, o grupo de poesia do qual eu fazia parte – a Nova Plêiade – publicou sua primeira e única coletânea. Já o "Alquimia" demorou bem mais: foi um projeto deixado na gaveta por umas duas décadas. Foi sufocado por outras demandas da vida... por um lado, pode amadurecer. No meu caso, começar a escrever foi uma necessidade, quando as ansiedades, incertezas e angústias de adolescência eram tamanhas que eu precisava encontrar alguma válvula de escape. Talvez esses sejam os melhores escritores: os que escrevem por necessidade. Nesse sentido, a relação com a escrita, no início, era bem dolorida.


Arendt. O que me encantou mais no seu livro foram a verve e a personalidade. No Poema gangrena, você faz troça dos poemas escritos dentro das fórmulas esperadas. Um poema deveria ser um gesto de expressão única; contudo é hoje publicado para estar de acordo com uma estética previamente definida, no ideário de um padrão. Ao mesmo tempo, você vai caminhando ao longo do livro para uma estrutura de soneto inglês, previamente definida. Como você sabe que sou partidária do recurso às tradições poéticas, não vejo nenhuma contradição nisso. Mas como você se explica para o leitor?

D. G. Ducci. Quando eu tinha 19 anos, resolvi montar uma banda de rock porque não encontrava muitas músicas novas de que gostasse. Resolvi, então, fazer minhas próprias. O mesmo se deu, de certa forma, com a poesia. Tenho muita dificuldade de me identificar com a produção contemporânea. A ideia do "Poema gangrena" surgiu quando eu pesquisava sobre a poesia brasileira da atualidade. Trata-se muito mais de um aviso para o leitor sobre o que vem a seguir do que desprezo pelos outros escritores. O "A Alquimia da Tempestade" conta a história de um amadurecimento. É como uma autobiografia, mas não de fatos, e sim de estudos e estilos que o eu-lírico experimentou. Nesse caminho tem um pouco de tudo, mas, de fato, o soneto foi ao mesmo tempo meu formato favorito e minha camisa de força por muitos anos.

“POESIA-GANGRENA

Insira aqui um poema de agora

bastante recente

um desabafo qualquer desses moços

em terceira pessoa

a rima vista com tédio e desgosto.

Escreva aqui um poema apressado

vômito indulgente

com ar coloquial, jeito de gente

forçada metalíngua

porque o novo é só bom quando é novo.

Esboce aqui um poema-sucesso

superdiferente

alternativo, mas nada maldito

sem tanto trabalho

porque sentir é bom mas pensar dói.

Rascunhe aqui um poema sem jeito

mágica doente

produtiva vanguarda da preguiça

e perfeito descuido

com uma surpresa no fim, pra ser chique.

Rabisque aqui um poema do presente

jorro sem torrente

impensado prazer de quem se rende

brinquedo quebrado

que conquista a crítica e o prêmio.

E não esqueça uma frase nonsense

self-referente

pra depois alguém fingir que entende

deslumbre radical

a bosta besta de quem nada diz.

Insira aqui um poema de agora,

bem recente.

Insira aqui,

só não peça pra eu ler.”

D. G. Ducci, Alquimia da Tempestade.


Arendt. No poema aos bardos, publicado na Revista da Associação de Diplomatas Brasileiros e na contracapa de seu livro, divertidíssimo, você faz uso capcioso da estrutura para chutar o balde e preservar toda a sonoridade de um soneto. Onde você escreveu e o que te inspirou?

D. G. Ducci. A primeira versão desse poema surgiu aos 17 anos. Acho que eu o escrevi durante alguma aula no colégio. Não façam isso, caríssimas e caríssimos! Prestem atenção ao professor [risos]. Nele há uma mistura de influências de Shakespeare, de universo de fantasia medieval e da consciência de que o poeta, por mais líricas e belas sejam suas obras, é sempre meio um bobo da corte.

Arendt. Quais seus poetas e poemas favoritos?

D. G. Ducci. Como eu comentei, acho difícil me identificar com os poetas contemporâneos. Quando comecei a escrever, os que mais me influenciaram foram Shakespeare, Álvares de Azevedo e o poeta acreano-carioca J.G. de Araújo Jorge (este último pelo simples fato de minha mãe ter suas obras completas em casa). Outra inspiração fortíssima foi Renato Russo – o que é quase incontornável para quem cresceu na Brasília dos anos 1980. Hoje em dia eu não tenho grandes paixões na poesia, mas há que se citar Nicolas Behr, pela veia brasiliense, Felipe Fortuna (que faz uma poesia completamente diferente da minha, mas não deixo de admirar), Antonio Miranda e sua poesia verborrágica, e Angélica Freitas, que faz uma poesia importantíssima.

Arendt. Vamos falar da choça da irmandade dos pré-rafaelitas, de Dante Gabriel Rossetti, William Morris, Christina Rossetti, George Meredith e Algernon Charles Swinburne. Na pintura: Blake, William Hunt, Jan von Eyck, Waterhouse. Eles foram ridicularizados em seu tempo, como meia dúzia de moleques vaidosos e visionários. Também os alemães que deram vazão à onda romântica vitoriana foram recebidos pela crítica com chacota, dizia-se uma mistureba de recurso aos clássicos e aos velhos mestres e alquimia, de pouca virtuosidade acadêmica... Sabemos que esse movimento artístico teve alto impacto por seu valor oculto e místico, inclusive no Brasil, onde aprendemos didaticamente a integrá-lo dentro do movimento simbolista. Seu expoente mais famoso aqui é o Olavo Bilac, autor do “ora direis ouvir estrelas”, um dos poemas que todo leitor sabe de cor... O que você acha dessa circunscrição analítica dos professores e críticos de literatura? Enxergar a poesia por meio da categorização em movimentos diminui a luz dos versos desses poetas?

D. G. Ducci. O problema dessa categorização é que as pessoas – mesmo os professores – às vezes se esquecem de que se trata apenas de uma ferramenta didática. Os traços das "escolas" literárias nem sempre estão presentes em todos os seus autores. Em compensação, há outros traços e diálogos que enriquecem suas obras. Cada autor mereceria um estudo mais aprofundado, mas isso é impossível para quem está conhecendo literatura, ou quer ter apenas uma noção geral. Um dos exemplos mais irônicos para mim é do de Machado de Assis, que é, oficialmente, classificado como Realista pelos livros didáticos, mas transcende qualquer classificação. Quanto aos Pré-Rafaelitas – ah, as musas de Rosetti ! – esse momento em que o "novo" aparece sempre tende a incomodar o establishment. Hoje temos uma experiência um pouco inversa, já que desde o Modernismo e o Pós-Modernismo tudo pode ser arte, com as consequências positivas e negativas disso.


Alquimia da Tempestade, de D. G. Ducci. Editora 7 Letras, 2016, 100p.

Arendt. A sua poesia foi introduzida ao público como romântica. Notei também que não passa desapercebida a sua iniciativa, que muito louvo, de dar novo uso a palavras raras. Como você mesmo avalia os seus versos?

D. G. Ducci. O Romantismo que pode ser percebido no livro é muito mais do espírito da obra do que propriamente das formas. O soneto não é um formato tipicamente romântico, por exemplo. Há vários flertes no "Alquimia"... há Arcadismo, Simbolismo, Parnasianismo... tentativas não tão sensacionais de Modernismo. O caminho que o eu-lírico percorreu é longo. Talvez pela própria gênese de muitos dos poemas – que foi o período da adolescência – o arroubo, a subjetividade e o mal-do-século acabaram prevalecendo na obra. Depois de publicado o livro, são os leitores que devem avaliar os versos. Para mim, eles são sinceros, mas nunca quis publicar apenas desabafos. Há um cuidado com a linguagem, para oferecer algo trabalhado. Curiosamente, os vocábulos menos comuns eram conhecidos por mim, talvez pela bagagem de leitura. Não é uma escolha estética de complicar o poema – mas não há, igualmente, esforço para simplificar. Eu mesmo adoro encontrar uma palavra desconhecida quando leio uma obra. É oportunidade de aprender mais.

“AOS BARDOS

Não vale o silvo, lânguido e sombrio,

por mais que do licor da vida eu beba

numa taberna – berço do Destino

a sibilar febril por sobre a mesa.

Dor e tristeza hei de levar comigo,

hei de partir em dois o amante asceta,

e no veneno ver melancolia

destilada nos sonhos do poeta...

Sentir o toque n’alma a fantasia,

do tempo uma fração tornar-se ébria.

A me encantar no olhar do ser que trila,

crismo-me logo rei das epopeias.

Se não percebo o som do amor hilota,

sou pois o bardo, vulgo um idiota.”

D. G. Ducci, Alquimia da Tempestade.

Arendt. No seu livro, particularmente nos sonetos, há uma musa. Em sua palestra recente, na 33ª Feira do Livro de Brasília, cujo convite muito agradeço, você conta que, assim como o movimento pré-Rafaelita pintava uma mulher inexistente, deduzida de uma visão onírica, também nos seus versos há a visão de uma mulher divina. Como você lidou com essa questão, no seu casamento? Há algum segredo para criar com liberdade de pensamento, e ao mesmo tempo manter vínculos de equilíbrio e respeito com a pessoa a quem você se dedica?

D. G. Ducci. A questão do que inspira um poema é curiosa. Às vezes o que o autor estava pensando ao escrever pouco importa para quem lê. No "Alquimia", por exemplo, há poemas que parecem escritos para pessoas, e na verdade não o são. O "Trojan" foi escrito para a cidade de Londres. Se eu não tivesse explicitado isso no livro, muitos leitores pensariam que era destinado a uma mulher. Os poemas são compostos para diferentes musas – reais ou não – que me inspiraram ao longo da vida. Mas mesmo as mulheres reais que os inspiraram passam por um processo de "musificação", ainda mais se levado em conta o espírito do livro.

Arendt. O título do seu livro é “Alquimia da Tempestade”. Ao final, você encerra o livro com um breve posfácio: “Esta não foi uma obra de ficção”. Quais foram as reações alquímicas e novos materiais que você produziu com os elementos que incluiu nos versos?

D. G. Ducci. A frase está ali de propósito, para reforçar o caráter autobiográfico do livro. Não se trata, como eu disse, de uma autobiografia factual, e sim poética. "A Alquimia da Tempestade ser lido como uma coletânea de poemas comum, com cada poema como unidade de leitura, lidos em qualquer ordem, ou como uma obra inteira, e é aqui que ele ganha uma compreensão a mais. Lido dessa forma, é possível espiar que elementos causaram que reação: do lirismo e ingenuidade até a crítica e acidez, passando por dores e decepções. A referência à tempestade é múltipla: o, Sturm und drang alemão, a última peça de Shakespeare, a "tempestade que chega" e "é da cor dos seus olhos castanhos"...

Arendt. De seus achados poéticos que me são favoritos: “sentir é fácil, mas pensar dói”; “agradar a gregos, troianos e paulistas” e “vim, vi e fui vencido”. O poema em que você critica a classe média que nada lê nada também retumba. A desilusão destilada em sabedoria! Conte-nos um pouco sobre os seus novos projetos. Poderemos ler e ouvir mais versos?

D. G. Ducci. As ideias que têm povoado minha cabeça são mais de prosa do que poesia. Tenho escrito as críticas no Razão de Aspecto e comecei a rascunhar o que pode vir a ser meu primeiro romance. Tenho muitos versos escritos para letras de música – embora, claro, possam ser considerados poemas, têm uma lógica e uma sonoridade que nem sempre funcionam sem a melodia. Quem sabe um dia eu não resolva compilar esse material. Só posso adiantar que parte dele contém os versos mais tristes que eu já escrevi. Citando Neruda sem querer...

Arendt. Obrigada, Ducci, por nos presentear com esta entrevista e com seus poemas. Sorte e sucesso em todas as suas iniciativas poéticas!

“DANNY LANE

Não é só pra uma noite divertida,

embora a diversão seja bem-vinda.

É gente que se encontra sem avisos

mas quer continuar a se encontrar.

E sem maiores dores, devagar,

amigos já não são mais só amigos:

as duas existências vão seguindo

imersas em conversas infinitas.

É coisa para uma ou sete vidas

inteiras e intensas e sadias,

que podem demorar, mas se aproximam

e sabem que terão o seu lugar.

Assinale a alternativa que melhor se adequa a seu estado de espírito:

Opção a)

Agora que essa chance nos foi dada

é hora de nós sermos namorados.

Opção b)

Daí vem a pessoa e tudo estraga

e diz que nunca quis ser namorada.”

D. G. Ducci, poema inédito.



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