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Posse na Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa

Atualizado: Fev 4











Discurso de posse

Ana Paula Arendt

Sessão de 23 de janeiro de 2020 da 

Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa 


Estou muito feliz em me somar a esta Confraria de ilustres escritores, renomados intelectuais, e agradeço pela honra de ter sido eleita sócia correspondente estrangeira desta colenda Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa. A vida por vezes nos proporciona certas alegrias difíceis de compreender, em um mundo marcado pelas trocas e pelas disputas. Tendo em vista nossas tantas falhas e defeitos questionei o mérito de receber esta honra. Mas ser capaz de compreender o valor inestimável deste presente com que Vossas Excelências me brindam me fez pensar ter sido regalada esta honra a alguém que a guardará com a devida reverência.


Foi também com muito contento que li as palavras generosas do confrade e Excelentíssimo Presidente anterior desta Academia, Dr. Artur Anselmo, sobre minha poesia. No Brasil eu me sinto valorizada no dever de zelar pela nossa cultura brasileira, para que permaneça despretensiosa, e também me sinto apreciada no meu esforço de construir a nossa literatura, para que resista lusófona; mas pude conferir que coisa muito diferente é ser aplaudida por pessoas que muito admiro, ainda no início de minha obra. Isto com certeza me serve como grande incentivo para seguir adiante.  

 

De onde veio a ideia me trazer à convivência de pessoas tão ilustres? Eu espero que da certeza de que estarei sempre à disposição dos colegas para apoiá-los em seus percursos e para aprender da experiência que aqui guardam, prosseguindo na dedicação de minha obra a valorizar nossa língua portuguesa e nossa cultura lusófona. E o quê exatamente tenciono aprender? 


Penso que a arte das Letras está vivamente ligada a um propósito de felicidade. Dr. Artur Anselmo nos conta em sua obra que a palavra é o princípio da nossa história, a necessidade de descrever o que vivemos e de registrar o que imaginamos. Dito por ele, “ no princípio era o Verbo”, algo já escrito se renova. Necessitamos da felicidade das palavras que nos dizem coisas novas e de revestir o que foi dito com ouro do tempo. De encontrar uns nos outros a consideração necessária para pensar e escrever, e também de conhecer pelos olhos do outro o valor do que vivemos, o sentido do que fazemos. 


Nós nos conhecemos, e também a ilustríssima cientista, Sra. sua esposa, Dra. Maria Adozinda, por ocasião de um debate sobre os rumos da poesia lusófona. Ele nos presenteou então com algo muito maior que a sugestão de bons rumos, pois as boas conversas nos levaram a bons ramos.  Fred Maia, também presente, nos disse muito preparadamente a palavra sonho, a qual guardo ainda como um presente. Deixar de lado um pensamento guiado pela finalidade e percorrer ideias e sonhos me pareceu algo muito mais útil e além disso agradável, pois os caminhos abertos com as veias da espontaneidade nos levam à surpresa do que antes não havíamos concebido. Os caminhos do coração são mais bonitos e a finalidade se torna algo dispensável, quando aqui nos encontramos e nos descobrimos em boa companhia. Desta convivência surge o que ainda não sabemos e precisamos desbravar. Ainda precisamos saber mais de nossas raízes comuns numa aventura humana que se iniciou na África, nas práticas dos povos antigos que se assemelham em tantas partes, das origens de nosso desassossego, do amor sem encontrar destino. 


E a poesia é isto, viver na boa companhia das palavras de sentimento, com o afeto encrustado na tinta, ou na luz de tela, sob os acontecimentos no torvelinho das considerações de nada excluído. As pernas nos levam e as mãos fiam, nos movemos nos tecidos que vão se criando com nossas vontades que se tocam. O amor pelos livros e pela presença de algo que foi dito. 


De minhas idas e vindas, dos passeios pela Mátria lusa, a terra que nos engendrou e cativou, as palavras vêm para formar esses tecidos dos quais é feita a nossa alma. Os nossos rostos passam a refletir as cores das paisagens de que se admira o nosso coração. 


Nesta Academia, com estantes de tantos instantes abertos, a vida de muita gente ao redor se dura. Vida por toda parte, e quando a paisagem de toda esta casa brilha, também brilha meu rosto onde eu esteja. É um presente precioso, fazer parte disto, de dar um senso glorioso às coisas. Minha prece é a de que eu possa enriquecer os trabalhos desta Academia com os mergulhos na poesia e nas descobertas que faremos.   

Eu me preocupo, quando vejo algo que amo: preservar, proteger o legado de letras e de história que recebemos, portar a relevância, com o cuidado necessário para que não se desgaste a delicadeza das formas raras. Eu jamais poderia ter avançado sem ter recebido esta bênção que porto de meus colegas diplomatas, brasileiros, mas também portugueses, e de outras nacionalidades com os quais me ponho a refletir e sonhar. 


O que amamos cresce mais com o carinho do que com o sofrimento, essa justificativa que a agressão busca para se perpetuar existindo, para clamar o triunfo do incompleto. Sofrimento que, neste lugar em que estamos celebrando a amizade em cerimônia, fica do lado de fora, pois aqui eu encontro o santuário do tempo imenso.


E se os limites da língua são os limites do nosso pensamento, expandir nossos limites de dizer as coisas nos levará a também pensar de modo mais amplo. Encontrar sinônimos abandonados, nos leitos em que correram as histórias dos povos que nos formaram, é muitas vezes recuperar o sentido do que queremos dizer, pois variando vocábulos, o que dizemos ganha a graça e a força do que se deseja efetivamente dizer. Cecília Meireles, nossa grande poeta brasileira, nos falava do arrebique das palavras novas… Por isso fujo da inércia de determinar quesitos e estou muito feliz de preparar novas palavras também para meus novos amigos e Confrades, de despertar o gosto pelo que terão escrito comigo; são os amigos a presença ubíqua, pois os carregamos aonde vamos, no olhar sobre o que se vive. 


Eu espero, na companhia sagrada desta amizade verdadeira, encontrar melhores versos para produzir a felicidade que almejamos e a satisfação de memória do que foi outrora vivido. De encontrar belo tino nas coisas simples e sagrar a verve da nossa amada língua portuguesa, a construção coletiva que nos confere sentido e busca, o sabor da identidade do que somos. Patrimônio que, sendo representante do Brasil, também espero defender com meu País em outras esferas, inclusive política, com o apoio de grandes nomes da diplomacia que acolhi no seio, Vinicius de Moraes, Antônio Houaiss, Joao Cabral de Melo Neto, entre outros, inclusive grandes poetas meus contemporâneos, Raul de Taunay e Davino Sena; e ouvindo a voz de nossos países amigos lusófonos, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP. 


Agradeço portanto pela presença de meus novos ilustres amigos de letras nesta tarde em que celebro, e também pela presença de rostos conhecidos. Faço muito pelos meus Filhos, aqueles que acolhi em meu ventre, e também os Filhos que nutrimos em espírito. As paisagens aqui em Portugal são muitas, e tanta gente busca conhecer grandes memoriais e famosos edifícios, para emprestar deles o prestígio que nos conferem. Por que o fazem? Pondero que pelo fato de que esses monumentos antigos tomaram muito tempo para ser construídos por muitas mãos. Mas também as pessoas são construções coletivas, as quais talvez tenham tomado ainda mais mãos para se fazer. A minha principal motivação para escrever continuamente é esta: pela leitura e escrita, legar a eles a capacidade de construir-se. Uma pessoa mal construída, assim como um prédio mal construído, pode ser um risco para todos, mas uma pessoa bem construída pode salvar a humanidade. Por isso me encanta ver aqui belas construções de pessoas… Algumas em seus trabalhos basilares, outras já em seu esplendor completo. 


Preocupo-me com a responsabilidade que me concedem Vossas Excelências, ilustres acadêmicos, de aprender esse ofício de edificar a humanidade, escrevendo e contando, formando e crescendo, para que sejamos construções sólidas e abertas; com a minha pluma tão simplezinha que festejaram, mas também com a ferramenta mais valiosa que aprendi de Dr. Artur Anselmo e de Dra. Maria Adozinda: do amor partilhado pelas letras, a disponibilidade permanente. 


Muito obrigada a todos por este privilégio e por terem me honrado ao me trazer para junto de si. 


Ana Paula Arendt. 

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