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AGRADECIMENTO

Agradeço ao Exmo. Governador de São Paulo e a Dra. Suely, do Protocolo, pela gentileza da carta de cumprimentos.


O poema que revisei é uma dedicação a minha Filha, paulistana, feito das memórias de quando percorríamos a cidade de São Paulo, quando ela era um bebê no carrinho, e dos momentos que vivemos hoje.


Envio sempre poemas para todos, porque penso a poesia serve para nos recordar do valor e da beleza da vida. Raros, contudo, são os homens de grande sensibilidade, que respondem agradecendo.


A uma poeta não existe melhor incentivo para continuar escrevendo e melhorando a escrita do que o carinho de uma carta.


Obrigada! Aos amigos leitores, transcrevo o poema que revisei, "Paulisteia", escrito em 30 de abril deste ano.




Paulisteia

(para uma Filha paulistana no Dia Nacional da Mulher)

Cidade incessante! Jamais quietas as tuas ruas de pintar paisagens, correr os carros, pisar os pés, catar os rios, acender luzes, levantar estrelas, murmurar andares, apagar luzes, erguer os sois, piar pássaros, esconder túneis, manar as pedras, guardar as praças, crescer os prédios, golpear idílios, estiar domínios, arrancar as manchas, arrojar mosaicos, soluçar lugares, estancar o tráfego, serenar culturas, mastigar o sono, desfazer as várzeas, esgalhar os raios, golpear as vozes, apegar os cachos, marginar a inércia, modilhar os coros, abreviar circuitos, asfaltar taboleiros, purgar modismos, conduzir sorvedouros, preceder as asas, entalhar passos incertos. Dende as calçadas têm pedras portuguesas e porende são de cor marfim e grafite. Dende as entrelinhas sujas de foligem e porende teu mapa ruço e branco. Infinito em padronagens modulares… As ondulações do canto de São Bento desenham São Paulo no soar dos sinos para encantar as mulheres. Cada pessoa se repete como a nota de um canto gregoriano grisalho, no jeito de falar com vogais abertas. Também os prédios lívidos fazem moldura branca de um céu cinéreo: tão cinza! Cinza de alojar estátuas voluptuosas; e cinza de chumbo nas notícias que leio nas bancas desde a calçada, eu gostaria, em terno branco. Mas me visto de cor cinzenta, também estou feita de padrões repetidos de prata, sendo tua cidade, página após página em branco que a vida vira. Falo sobre mim que existo em teu movimento, a parte de mim que ficou nas tuas ruas. Filha: és a grande parte de mim que me importa. A filha que és, a filha que ainda serás: tu, que foste filha comigo, que existe e ainda vai existir, depois que eu parta. Nos teus olhos o encontro de amor que nasceu em São Paulo. Há outras partes de mim e de ti no sol de teus irmãos tão puros e etéreos, os que gostam de se ater às coisas sem delas recobrir o que são; e deles se abriram tantas flores. Mas eis a parte industriosa que construiu tudo isto, o que se escondeu de mim, o que leva tempo de se ver caminhando, porque és imensa como a tua cidade. Eu te conto que a floresta é maior, e que donde venho, existem árvores mais altas que os prédios. Mas os teus olhos reviram as pessoas indo e vindo, as gentes maiores no fluxo que a nuvem de borboletas amarelas. E caminhamos, diurnas e notívagas, por tantas ruas! Devoramos os trajetos incontáveis nos quais as pessoas percorriam a vida apressadas: a gula de futuro. Ali, nós suspiramos o sol crivado pelas sibipirunas e prismado pelos cristais, entre subidas e descidas, vendo a gente nos sobrados debruçada, nós duas nos cafés e nas padarias reconhecidas. Tudo podia ser encontrado em tua cidade para remediar as dores de um tempo perdido, os hematomas das palavras pesadas. Nada poderia me separar de ti: nem mesmo as púrpuras por melancolia. Eu as entreguei a São Luiz, para os jesuítas plantarem delas mais prédios e árvores. E a cidade foi brotando tantos assuntos e livros, tanta História e causos, que apaixonada por tudo me esqueci do peso das coisas: afinal, feita de concerto do concreto e de espigas de aço. Um animal desprevenido da imensidão de São Paulo constaria na rua sem exéquias. No trânsito das portas, o busto de homens cansados: insatisfeitos, mas felizes. As feiras e os mercados, os rostos familiares, a conversa risonha… Tudo isso deixou de ser por um tempo, agora que vigoras no mundo em busca de amanhã, enquanto levas mais de mil percursos da tua Cidade consigo. Mas haverá o dia em que estarás de volta e sentirás um arcabouço de ares passados, o que vivemos sob o ruído de um movimento manso. Lerás este poema. Eu bem gostaria que cuidasses de todos esses páteos que brotaram e me refizeram de um modo melhor do que eu seria: quando venha o tempo da tua geração fazer o tempo. Não haverá sombra, com a sobriedade da iluminação noturna tiritando amizades no trecho feito de teus sorrisos. Mas amanhã é Primeiro de Maio. Amanhã… Mais um surto de tudo que amo, o que me sobrou de alívio nas tuas ausências irá se jogar na confusão de quatrocentas mil mortes, dizendo mais importante que as pessoas são as ruas. Tudo que eu amo não quer sair vivo e procura pedras para ladrilhar o desconhecido. Por isso eu sangro. Estás em Paris vazia e segura: eu bem vi ninguém e nenhum bicho, quando te beijei dormindo recoberta, naquela noite chuvosa e tranquila. As palavras felizes me faltam: me falam que são todas suas. Mas pedregoso ou pavimentado, amanhã será a injunção do amor e um dia novo, não mais escuridão do incerto, e os anos seguintes trarão de volta toda flange aos eixos: porque os homens corretos fizeram mapas para não caminhar fora deles. Assim seja, para que a tua cidade não pereça de falsos devotos sem escrínios. Urbanos: procriai homens com mapas… E desde este Planalto celestial escrevo a ode de tuas bênçãos, eu observo os cumes das tuas terras fixas, o abraço de Mairiporã sobre a vida vibrante… Consta rara a lei da compaixão no calendário de virtudes, contudo a Deus eu imploro pela vida dos que enterram covardes, dos que despacham sem dores os males do passado; para que os paulistas vivam com alegria e continuem a preencher as tuas ruas de passagens antigas e de caminhos novos. E onde está o meu abrigo de couro e velo? O que vier a restar dos animais devoradores do ser humano há de ser, nesta saudosa garoa, o nosso eterno agasalho.

Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress. Serviços Gerais/Grupo Trinca.