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canto aos jornalistas

Eis aqui uma homenagem e poema de 3 páginas para os amigos jornalistas, em forma de carta. Boa leitura e um final de semana abençoado a todos!






Canto aos jornalistas

Por Ana Paula Arendt*

“Jornalismo é publicar

aquilo que alguém não quer que se publique.

Todo o resto é publicidade.”

William Randolph Hearst (1863-1951)

Neste momento em que não se pode captar nada além do momento, os tristes fatos vos fazem tristes. Quereis, então, que algum poeta cante e vos console, de tantos dedos apontados em riste… Mas fossem os fatos tornados alegres, amigos: vos fariam vinagres, legrando rachadura até encontrar maior fenda, como regra. No entanto, alimentar-se do pior tem feito cãibras. Do texto o traste. Diríeis que o futuro estaria comprometido, sem os engastes sobre os defeitos de um presente ecúmeno. Eu vos defendo! Os bons médicos não se alimentam da doença, mas da cura, de algo númeno: assim vós também vos alimentais da luz sobre o que antes se omitia. Sim, são holofotes, e não espelhos, a mídia… Mas estais tristes, porque os fatos são sombrios há um interminável tempo. Consomem de vós as luzes, neste momento. Fossem os fatos inofensivos, vos fariam revisitar as memórias de casuística, exumar dos arquivos todas as gafes históricas e precedentes de erística. Fossem preocupantes, buscaríeis os especialistas para espairecer as dúvidas vistas, arriscando um entendimento cozido em respaldo; os pedaços de coisas parecidas boiando num mesmo caldo. Fossem difamatórios, um verdadeiro jornalista ouviria antes os alvos persecutórios, em busca da outra face do contraditório: não convém duvidar de apenas uma delas. Mas no momento as ocorrências são tristes, não acusações belas. Recebeis as ordens imperativas de coonestá-las, para que o leitor não feche a tela. Listais então as interpretações deterministas que conformam as linhas sagradas pelos colegas em posições superiores, acrescentando um ou outro detalhe do século XVI e os seus pensadores. A instabilidade das opiniões é intrínseca, inevitável nos relatórios: percorreis então as geodésicas para atingir o pico de confiança onde se erguem os notórios. Ah, Frost, Giroud, Capote-Lee, Paulo Francis, Abujamra**… Lestes demasiado uns aos outros. Mas onde estão estes repórteres atilados para espantar os molotros? Agora… Com fatos tristes, estais tristes. Melancolia! Por causa disso viestes parar em mim, limiar donde se escreve a escatologia… Viestes declamar voragem neste poema. O dia amanheceu e aqui estamos, sem ânimo para dilemas, perdidos na própria casa. Buscamos então palavras para abrir as asas, encher o dia de propósito. Mas de ser tão repetidas, já foram esgarçadas pelos prosélitos. Não perfazem mais o sentido e o crédito… Democracia e liberdade são os panos encardidos com que os leprosos limpam agora o chão imundo. Levantai os pés desse piso imundo, enquanto passo o pano imundo, por obséquio. Obrigada, limparei até o fundo neste colóquio. Onde estarão as palavras novas que revestem as coisas de novidade, onde estará o detalhe do que ainda não foi visto nesta cidade, o olhar de uma pessoa que nos aprofunda, nos sacia e causa amizade? Um rosto se desloca. Dizeis então que tudo já foi escrito, incluís uma frase de efeito opinativo já dito, para concluir qualquer diagnóstico com um juízo absoluto; para que o leitor não se desperte neste minuto. Já podeis abaixar os pés, já está limpo o vosso chão sujo, com o meu pano sujo. De rabujos é que achamos que não há mais novos tópicos: que tudo é repetição deteriorada de ontem, nestes trópicos. Toda arte no passado, a poesia não mais se declama, as rimas incomodam… Colocamos no topo quem é odiado, quem nos alimenta diariamente com palavras profanas, obcecados estamos por destruir o que rapidamente em nós se projeta e nossas águas rodam. O que nos usa para enaltecer o próprio ego, o que bate em nós com seus braços de um povo cego… Se estamos imersos em uma mentalidade autoritária, proclamamos irreversível o fim dos partidos, das ideias e das coisas, de maneira arbitrária. Melhor recordar avançam e recuam nas muitas loisas as relevâncias, temporárias. Triunfar definitivamente, indefinidamente, é uma ilusão totalitária. O ódio também une as pessoas, mas que poema sai disso? Idolatrai vós o poder e o Estado, eu prefiro um canto insubmisso: se para vós cabe que o poder e o Estado monopolizem imissos… Se quereis fazer da política uma rotina de convicção religiosa… Para mim, não. Para mim vós sois mais interessantes, e não sou disso generosa. Mas onde estão os traços insubmissos de vossos nomes antigos, face a repetições cruas nauseabundas, do mesmo ab absurdum consigo? Ninguém quer burilar algo absurdo… O poder e o Estado já não fazem mais nada além de estar surdos, enaltecem os seus próprios privilégios: dão declarações do quanto dói neles o mal que fazem, sacrilégio. Os estagiários se distraem do estupor com video-games: não fossem os jornalistas labaredas capazes, estirando o que os queime… Mas de estar fartos não quereis rostos novos e hartos, nem lançar nas manchetes o que se encontra e comparto, os eventos de páginas institucionalizadas – de mulheres elegantes, doutoradas! Não quereis saber do que têm feito os profissionais mais ricos e mais jovens, não nos encontramos mais nos corredores sorrateiros de Ministérios, nem com vossos pajens; nem nos restaurantes, nem na casa de nossos amigos d’antes; não há mais entrevistas com opiniões interessantes, nem perguntas difíceis aos políticos titubeantes… Que saudade das imagens deveras capciosas. Debalde os projetos por nós concebidos, em língua primorosa. Das pessoas que surgem com mais votos ouvimos falar jamais… Vieram das projeções instantâneas, pois não dissemos o que é importante e contumaz. Nem estamos mais com os pássaros embevecidos! Ouvimos o canto do pássaro ao longe pela manhã descido, mas não nos alegramos, por ele agradecidos. Buscamos agora a janela para ver aonde foram os pássaros dúlcidos, buscamos agora o ruído branco de asas rufando que não cessa ao ouvido. Tão grande é o silêncio das coisas que não jorram… Eu não aguento mais vê-los sendo agredidos, a desonra. Um colega vosso chega cruento dessa cenra de censura, pois vos dizem morram; outro do hospital tem alta. Os faltosos usam as cores da bandeira nossa para nos dizer faltas, se bem deles compatriotas: somos a escória do mundo. Em Londres, Paris e Nova Iorque gritam que somos lixo difundo, que não somos bem-vindos em nenhuma parte. Os condores e as aves de rapina são melhor recebidos, destarte. E ai! Se falamos deles! Então buscamos entre uns e outros palavras reles, de consentimento mútuo que nos faça assegurar ainda vivos, que nossa reputação sincronizada esteja intacta, um alívio… Recordemos Kal-El e sua chefe são jornalistas, assim como quem trama teias dos próprios pulsos: o território fresco do imaginário ainda é bom impulso. Neste lugar sereis erguidos sobre as manadas famintas a cada deserto… Pois os vossos textos ainda assim nos chegam certos, sobre eles debruço todos os dias os meus olhos fatigados e abertos. Foi assim que vi chegar vossa tristeza! Liguei para vossos amigos, mas a solidariedade se desfaz sob incerteza. Vejo os proprietários de vossas escrivaninhas louvando quem vos desfere um tapa na face… Eles foram obrigados a isso, para vos dar de comer, a um disfarce, para que um soco na nuca não vos ameace. Já não raptam mulheres da alta sociedade a um casebre inóspito para jurar amor, nem para obter promessa de casamento, não, senhor: nem constróem estúdios em porões de Manhattan, donde ouviremos as entonações mais pitorescas, sem bravatas. Deveis compreender que os proprietários de vossas escrivaninhas foram obrigados por chão cediço, para que não leveis mais tapas na face, por simplesmente fazer bem vosso serviço. Lemos então os jornais dos países desenvolvidos, os que se julgam importantes e por isso se tornaram importantes, as novas receitas de tortas ao lado das crueldades de uma guerra distante, os debates nos parlamentos sobre projetos habilitantes, as movimentações que interferem na vida de todos os habitantes… Por que não convidamos jornalistas estrangeiros para escrever a nosso respeito, como visitantes? Dizeis que eles não aceitam ser pagos? Não temos notícias de Bangladesh, nem do Egito, nem do Uruguai, entre eles e nós, há espaços vagos nos jornais… Como foi o resultado da colheita de algodão dos brasileiros que fundaram o Togo e o Benim? Ah, a falta de escândalos e de crimes no exterior nos choca, assim. Mas que escolha têm os jornalistas, hoje? Esqueçamo-nos de nossa tristeza, com café e tabaco do problema se foge. Já é hora de rapinar junto às nossas fontes e rascunhar no papel o que dizem. Já é meio-dia, hora de incomodar os que não respondem sobre deslizes, hora de convidar gente louca à festa da meia-noite. Quem não ama ver sua notícia publicada no dia seguinte, em deleite? Já tendes guerra suficiente entre as oligarquias buscando a apropriação do Estado, já tendes estatísticas para reler e indagar onde estamos errados, sobre a gente por detrás dos números e o que não medimos, aliás. Já podeis planejar o que merecerá o Esso além do efêmero, elogiar autoridades para repudiá-las em seguida com esmero, saltar o próximo obstáculo, espero, ligar para os arcebispos e perguntar, ensanguentados, onde está o fascismo que eles nos prometeram: religião e política no mesmo espetáculo, se os avisos valeram. Já podeis encontrar pronta a charge genial do cartunista, já podeis entrevistar os representantes proselitistas, descerrar a nova pletora de seitas políticas lucrativas com ironias, decretar receitas monolíticas são ignomínia. Já os li às centenas de milhares, vossos textos em tantos lugares, durante tantos anos! Já podeis ir publicar sobre os passos soberanos da Rainha da Jordânia, da Infanta de Espanha… Já podeis enviar cartas a gabinetes pedindo notícias – que façam bom contraste à nossa estultícia. Ao solteirão mais cobiçado da Argentina, ao industrial da Colômbia retido na retina, ao viticultor do Chile, fazer sabatinas… Já podeis extravasar sobre a armadura de quem governa a Suíça, já podeis experimentar a cachaça amadurecida em madeiras distintas vitalícias, inventar novas lendas urbanas, dizer relíquias de Santos as nossas capistranas, falar das tábuas de pontes decanas… Já sois livres! Não sois mais escravos do sucessivo, mas mestres da própria palavra. Já podeis buscar nas governadoras, senadoras e deputadas onde a polêmica lavra, já podeis publicar imagens novas de paisagens raras e suscitar notícias de quem vos trata com dignidade e apreço. Já podeis dizer de um tirano mesquinho: não conheço… O mundo é maior quanto mais se olha para ele. O pensamento cresce quanto mais se pensa. O sentimento escala quanto mais à flor da pele, o amor impele que algo bom nos vença. Já podeis escolher melhores fatos com o cetro da relevância. Somos livres desde sempre! Brinde à nossa substância. Ide então perguntar o que andam lendo as crianças, quais seus sonhos e medos, ide questionar aos professores por que metade dos alunos não gostam de ler enredos e acham escrever algo enfadonho. Ide em paz. Ide em paz garimpar declarações de famosos que fazem nas redes da nossa imaginação um cais. Quanto a mim, amigos. Ainda estou no mesmo lugar, naquele limiar dos sinais dos tempos, procurando aonde foi o canto do pássaro, o seu templo, aguardando quem mais vem visitar este sossego de nosso padecimento.

* Ana Paula Arendt, pseudônimo literário de R. P. Alencar, é cientista política, poeta e diplomata. Membro da Academia das Ciências de Lisboa, classe de Letras e da New York Academy of Sciences. E-mail: anapaulaarendtpoesia@gmail.com

** - David Frost (1939-2013), jornalista britânico que entrevistou Nixon em abordagem legendária.

- Françoise Giroud (1916-2003), jornalista francesa, comandante da Legião de Honra. “A mulher será igual ao homem quando puder se manter em um cargo importante mesmo sendo incompetente”.

- Truman Capote (1924-1984) e Harper Lee (1926-2016), jornalistas literários.

- Paulo Francis (1930-1997), jornalista brasileiro e entrevistador mítico.

- Antônio Abujamra (1932-2015), jornalista brasileiro, entrevistador e teatrólogo.