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diplomacia e literatura

Diplomacia e Literatura.


Prezados leitores, tive a honra e alegria de ser convidada pelos amigos Rogério Mendes, Marcos Ferrari e César Jaques, a participar de uma entrevista no Programa Impacto, da Rádio Brazil Imperial, nesta sexta-feira. A eles muito agradeço. O áudio e a imagem ficaram prejudicados com a internet congestionada na sexta pela noite, mas tomo a liberdade de transcrever o nosso diálogo, para que vocês possam acompanhar sem lapsos o nosso debate. Sem dúvida muitas ideias surgiram e houve perguntas inteligentes dos entrevistadores. Sendo eu republicana, e não monarquista, foi um desafio interessante encontrar o que nos une, ao invés de nos centrar sobre o que nos divide.


Se os amigos leitores quiserem acompanhar mais de perto os eventos desse movimento político, podem se inscrever na Radio Brazil Imperial e no Canal Monarquia Livre no Youtube e no Facebook:


https://www.youtube.com/c/RádioBrazilIMPERIAL


https://www.youtube.com/c/CanalMonarquiaLivre


Boa leitura!

Com o carinho de

Ana Paula Arendt.

Participação no Programa Impacto, Canal Monarquia Livre, em 4 de novembro de 2022.


Sobre diplomacia


César Jaques. O que é diplomacia? O que fazem os diplomatas?

Ana Paula Arendt. A função do diplomata é representar o Brasil no exterior, nos postos em que estiver a serviço; Informar a Secretaria de Estado, que é a sede da nossa diplomacia, em Brasília. E eventualmente negociar, para defender o interesse brasileiro, as posições brasileiras, as quais são definidas pelo Itamaraty em conjunto com o Congresso Nacional, também definidas em conjunto entre os diversos órgãos de governos atinentes a cada matéria e a sociedade. De uma maneira geral, diplomacia é isso.

César Jaques. Rogério?

Ana Paula Arendt. Eu peço desculpas, mas acho que não estou ouvindo vocês.

César Jaques. É, está havendo uma interferência de áudio e um certo delay, também. A gente fala e ela demora para ouvir, e às vezes um pouco baixo, e o áudio dela também está um pouco baixo para a gente conseguir assimilar. A gente vai tocando, vamos conhecendo um pouquinho do trabalho da Ana Paula. Ela está falando sobre o que é a diplomacia, o trabalho dela, e nós vamos tocando aqui, agradecendo a Norma, os [inaudível], a Vilma, a criação raiz, toda a galera que está acompanhando a gente da rádio Brasil Imperial. Marcão, você tem alguma pergunta para a nossa entrevistada de hoje, a Ana Paula.

Marcão. Gostaria de saber da Ana Paula como que surgiu essa vocação para ser diplomata. Ela puxou de alguém da família, a vida foi caminhando até ela chegar à diplomacia? Eu queria que ela contasse um pouquinho sobre como ela tomou gosto e acabou indo por esse caminho.

Ana Paula Arendt. Eu cursei Relações Internacionais na Universidade de Brasília. Então eu tinha interesse em aprender novas línguas, conhecer novas culturas, negociar em nome da paz… Sempre tive muito interesse por História, e sobre como os países se relacionam, como os países celebram a paz e evitam guerras… Enfim, como eu prestei Relações Internacionais, e depois prestei concurso, fui aprovada alguns anos depois. Antes disso eu estudei Ciência Política na USP, fiz o mestrado.



Sobre o Brasil de ontem e o Brasil de hoje

Marcão. E me diz uma coisa. Como surgiu esse fascínio com a nossa querida Princesa Isabel, como que surgiu esse amor que a Senhorita tem, e como surgiu essa raiz monarquista?

Ana Paula Arendt. Bom, eu sou republicana… Eu falei para o Rogério, eu não sou monarquista.. (Risos). A minha família é uma família antiga. Eu sou heptaneta da D. Bárbara de Alencar, que foi uma revolucionária republicana e abolicionista, na região do Crato, no Ceará. Ela foi presa, naquela época. Em 1816 estourou a Confederação do Equador, a Revolução dos Padres, com todos os filhos. O que aconteceu é que ela era abolicionista e ela não negou diante das autoridades que ela era a favor da abolição da escravatura. Então a minha família descende do filho mais velho dela, Tristão de Alencar Araripe. Ele se apaixonou por uma escrava, e a libertou. A escrava se chamava Isabel, a minha hexavó. E eles tiveram um filho, Pedro Jaime. Ele foi incluído nos assentamentos da família. Ele foi considerado um filho legítimo… Isso não era possível, naquela época, mas como ela havia sido liberta, e como ela foi a primeira esposa do Tristão, era assim para a família, diante da família havia uma legitimidade. Só que isso causou escândalo, né? Os vizinhos fofocaram, acharam que aquilo era um absurdo, um menino mestiço fazer parte da família, receber o mesmo tratamento, e a notícia chegou até o Conde d’Arcos. Ela não fez nada contra a lei, mas mesmo assim Conde d’Arcos viu nisso uma transgressão, então por isso ele mandou prender Dona Bárbara – e todos os filhos, porque todos os cinco filhos apoiaram Dona Bárbara. Enfim, eu sou desse ramo. Então a cada geração, na nossa família, nós temos um Jaime, em homenagem a Pedro Jaime, filho de Tristão e de Isabel. O José de Alencar, que inclusive frequentou a Corte e era próximo do Imperador Dom Pedro II, era filho de Martiniano, eleito Senador mais tarde. Ele é o meu hexatio. Mas eu sou do ramo que veio da mestiçagem entre o Tristão e um ramo africano. O meu gosto pela Princesa Isabel vem disso. Primeiro que ela tem o mesmo nome da minha hexavó, décadas antes dela nascer… E segundo que ela é abolicionista, como nós. A Princesa traçou com muito maior êxito uma estratégia política para acabar com o preconceito de que os negros eram inferiores, por meio de apoio e bolsas de estudos, o que permitiu então inaugurar um estatuto de igual dignidade. Então é daí que vem o nosso interesse por ela. Até hoje, a nossa família sustenta esses valores, de dignidade, de igualdade jurídica. Parte da minha família é negra. Se bem eu sou branca, parte da minha família é colorida, na nossa família há pessoas de todas as cores.

Rogério. [Inaudível]

César Jaques. O Rogério perguntou para você o seguinte: Dom Bertrand esteve aqui em Brasília para a comemoração dos 200 anos da Independência. Ele queria saber se você já conhecia membros da Família Imperial atual, hoje, né, o ramo de Vassouras, Dom Bertrand, Dom Luiz… Dom Bertrand que esteve pessoalmente aí em Brasília nas comemorações.

Ana Paula Arendt. Eu conheci o Dom Bertrand, gosto muito dele. Acho que… Eu comentei com o Dr. Jean, ele achou graça, e Dr. Rogério também achou graça, mas a meu ver o Dom Bertrand é o cidadão republicano mais perfeito… Porque ele não tem nenhum privilégio, ele não faz questão de nenhum privilégio… Ele trata todas as pessoas com muito respeito, sem fazer acepção de pessoas… É uma pessoa que leva uma vida simples, de grande cultura, de grande ponderação, como nós gostaríamos que todo cidadão na República fosse…. Um cidadão responsável, que não se guia pelo interesse próprio, mas pelo bem comum, que não tem apego ao poder… Eu tive a honra de conhecer antes disso o Dom Bertrand pessoalmente, e a impressão que eu tenho é a de que ele é o nosso cidadão republicano ideal.

Rogério. César, eu mandei para você uma página… Dá para você colocar aí?

Marcão. Quando a Ana Paula fala de “republicano”, coisa pública, viu pessoal? Porque o Dom Bertrand tem essa áurea de servir ao povo, de servir à Nação; como a Ana Paula é republicana porque ela serve à Nação. Então é nesse sentido. O Luiz Philippe também tem essa colocação. Mas as pessoas misturam, acham que ela é República… Mas ela é coisa pública, ela trabalha para o povo, então é isso que ela está explicando para todo mundo, e às vezes as pessoas não entendem isso, então vou falando a respeito. Eu queria saber da Ana Paula… Ela tem uma grande defesa da mulher. Quando conversei com ela um pouquinho, a gente conseguiu falar por Instagram… Ela me falou de várias estatísticas de mortes de mulheres, de mortes de mulheres na América Latina. Eu queria que ela falasse um pouquinho sobre isso, já que é uma causa dela, é uma bandeira muito bonita e muito nobre da parte dela.

Ana Paula Arendt. Bom, eu agradeço pelo seu interesse no tema. Como vocês disseram, eu concordo com vocês, com que nós estejamos falando do republicanismo ideal, do republicanismo original, que nós tínhamos na antiga Roma, onde ser cidadão era motivo de orgulho, implicava em direitos, mas sobretudo em deveres. Eu acho que você colocou muito corretamente. Eu não considero que a República de 1889 tenha dado certo, suponho que nenhuma pessoa inteligente ou em sã consciência diria que 1889, a origem de uma república militarizada, fundamentada estritamente sobre hierarquias, tenha alcançado a virtude da igualdade jurídica, que consiste em escolher ser iguais. Isso pode acontecer também na monarquia. Existem monarquias que alcançaram muito maior nível de igualdade jurídica que o Brasil. Esse problema do homicídio de mulheres é grave, porque os homicídios, em geral, no Brasil são muito altos. Se nós formos contabilizar o número de homicídios no Brasil nos últimos dez anos, nós teremos encontrado mais de 500 mil mortos, em geral. Desses, mais de 50 mil mulheres mortas, pelos seus parceiros, pelas pessoas em quem elas confiaram, que diziam que as amavam… Então são mortes perversas. Para vocês terem uma ideia, o conflito mais sangrento da América Latina foi a Guerra do Paraguai. Na Guerra do Paraguai, se estima que morreram 60 mil soldados brasileiros, durante vários anos. Então, o que nós temos hoje, dentro do nosso próprio País, é um número de mortos equivalente a uma guerra, equivalente a um número de cidadãos que pereceram nas mãos de um inimigo, de outro país. E aqui nós estamos observando algo do mesmo patamar dentro do mesmo País. Como é que você declara o seu próprio concidadão seu inimigo, como é que você mata a mulher que você disse ontem que amava? Nós vemos no Brasil um caos de valores, um caos de comportamento, uma falta de identidade própria e de auto-estima das pessoas que praticam esses crimes. Acho que vocês têm muito a contribuir, porque a monarquia defende os bons valores, os bons costumes. Eu vejo que os monarquistas são muito gentis com as mulheres. Oferecem oportunidade de voz, são educados, respeitam… Ofertam apoio recíproco… Então eu acho que vocês são uma excelente influência para a sociedade. Infelizmente muitas autoridades perderam o senso, e ofendem mulheres, ofendem publicamente como se isso fosse normal. Mas eu entendo que os monarquistas não defendem apenas bons costumes: eles têm bons costumes. Então acho que essa é a grande diferença desse movimento, um movimento que deve ser preservado no Brasil.

Marcão. O áudio dela ficou muito bom, agora estou ouvindo. Ficou excelente, muito bom. O que está acontecendo, Ana, no Brasil, é uma triste história da nossa Nação como um todo. Estão havendo aí esses protestos e as pessoas realmente estão um pouco perdidas… Eu queria saber da Senhorita qual é o seu ponto de vista em relação a tudo isso que está acontecendo, o povo nas ruas, em frente dos quarteis… Uma visão diplomática do que está acontecendo. Como diplomata queria saber da Senhorita o que sente desses protestos, já que é uma linguagem completamente diferente de uma linguagem comum da sociedade, já que a Srta. tem uma linguagem muito mais abrangente, muito mais pacificadora, ou mais moderada… Queria saber da Srta. como a Srta. vê esses protestos, se vê com bons olhos, com maus olhos… Fique à vontade.

Ana Paula Arendt. Marcão, César, Rogério. O nosso Patrono, o Barão do Rio Branco, ele recomenda que os diplomatas não se pronunciem sobre política doméstica. Então por mais que eu tenha a minha opinião, a recomendação é que a gente guarde essas opiniões sobre temas candentes, especialmente temas políticos, na nossa esfera privativa. Porque isso não faz parte do nosso domínio, de questões afetas ao interesse de Estado. Portanto, o que eu tenho comigo e posso expressar é apenas a minha visão como todo cidadão, que ora se encontra perplexo com a desordem.

Rogério. César, eu queria que ela falasse da…

César. Ela está falando, ainda…

Ana Paula Arendt. … E quanto a nós, como cidadãos, o que devemos fazer? Vamos dar uma olhada no que estão fazendo Dom Bertrand e os deputados monarquistas. Acho que vocês dificilmente encontrarão qualquer um deles nas estradas fazendo bloqueios, certo? Se vocês não encontram os vossos líderes no meio da confusão, penso que é importante a gente se resguardar.

Rogério. Conseguiu ouvir, César?

César. Se o pessoal não entendeu o que ela disse, ela não pode se manifestar, porque não é a função dela, ela é a função de chefia de Estado, ela é da diplomacia brasileira, então assuntos domésticos, assuntos políticos, não têm nada a ver com o que ela trabalha. Então, na opinião da Ana, já que estava picotando um pouquinho o áudio, é de que as pessoas devem se resguardar em relação a esse assunto.

Marcão. Essa é a página de poesias da Ana, não é?

César. Fala, Rogério! Cadê o Rogério.

Marcão. A Ana voltou. Mas o Rogério caiu… Risos. É porque agora, o que é que está acontecendo? É porque a essa hora, o que está acontecendo? Nesse horário está tendo muito movimento, enviando mensagens, por causa dessas manifestações… Então o pessoal está todo conectado, mandando mensagens, mandando áudio e aí fica essa rede congestionada. Está acontecendo isso.

César. Rogério, você está ouvindo agora? Não… Ô Ana Paula… Como que faz para se tornar um diplomata? Eu quero me tornar um diplomata. Como que funciona, como que faz para se tornar um diplomata?

Ana Paula Arendt. Vocês devem estudar a bibliografia. Todos os anos, o Ministério das Relações Exteriores publica um edital contendo as matérias, os assuntos, a bibliografia que cada candidato deve ler. Então você deve estudar tudo, ler muito, ler a bibliografia do edital. Você deve ficar um ano, uns dois anos, mergulhado nesses assuntos. Tem de gostar muito, é como um casamento: aprofundar o conhecimento e conviver o tempo todo com esses temas, porque se não amar o que você está estudando, você não aguenta. O concurso seleciona aqueles que são aficionados por esses temas relacionados a diplomacia e política externa, aqueles que conseguem atingir o alto nível necessário para se expressar e fazer a Política Externa Brasileira junto ao público externo.

Sobre a poesia



Marcão. Eu queria falar com a Ana a respeito das poesias. Aliás, há um ano, há quase dois anos, eu descobri que eu tinha mais cinco tias, eu não sabia. Porque meu avô casou outra vez e eu não tinha contato com essas tias… Dentre essas tias que eu tenho, uma delas é poetisa. Também faz poesias. Então eu queria saber como é que vem essa vocação de ser uma poetisa. Como é que vem essa inspiração, ela puxou alguém da família dela, como é que é isso?

Ana Paula Arendt. Ah, pessoal. Eu peço desculpas apenas porque… Vou tentar tornar aqui a gravação mais audível… A poesia é um espaço criativo, onde eu posso colocar meus sentimentos, minha visão de mundo, minhas ideias. Eu escolhi produzir poesia com um pseudônimo literário. Houve poetas que foram diplomatas e escolheram usar pseudônimo: Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Saint-John Perse… Para não misturar com o mundo oficial da diplomacia, eles escolheram criar seus poemas sob um pseudônimo. E também porque o mundo de um diplomata é muitas vezes oneroso, afeito a tudo que é muito tradicional. Por vezes é até mesmo uma necessidade ter uma atividade criativa e artística, um espaço criativo, para falar em maior liberdade. O próprio Barão do Rio Branco escrevia as opiniões dele e extravasava algumas tiradas sob vários pseudônimos, em artigos para vários jornais. Então na poesia eu libero os meus sentimentos, tento curar as nossas tristezas partilhadas. Tristezas que não são apenas minhas. Vocês estão vendo aí os meus poemas mais recentes, um deles o canto aos jornalistas. Nós vimos esses eventos, uma jornalista com o rosto sangrando, da CNN Brasil, porque ela estava de vermelho e com um bottom do candidato dela, um jornalista que levou um soco na nuca… E não são pessoas que não tiveram nenhuma educação… É um assessor de uma prefeitura. Quer dizer, são pessoas que têm nível superior, são pessoas que receberam educação dos pais… E agridem, por causa de uma questão política, estão tomados por uma paixão política muito forte. Vendo isso a gente fica triste e expressa isso na poesia. Porque ali eu posso criar, ali eu posso dizer o que eu sinto… E até consolar quem me lê, porque acho que quem me lê também fica chocado. Então é uma espécie de sentimento partilhado. O poeta sente com alguém, quando escreve para alguém… Então o que vocês encontram aí é o que escrevo sobre essa angústia que estamos vivendo. Mas eu já tive poemas mais felizes, sobre os pássaros, sobre as flores…

Marcão. É, pega o sentimento, né, Ana? Pega o sentimento que você está tendo nesse momento. Se o momento é triste, o poema fica triste, se o momento é alegre, ficam mais alegres as obras.

Ana Paula Arendt. Um professor de latim, um dos grandes intelectuais brasileiros, o Paulo Rónai, ele dizia assim, que o dever do poeta é cantar a História da Pátria. Ele ensinava assim, para os alunos dele de latim: “poetas, cantai a História da Pátria”. Ele já não é vivo, mas a obra dele é viva e continua falando. Guardei isso dele. O dever do poeta é cantar a História da Pátria. Então a gente vai lendo, vendo, né… O que acontece, o que é mais importante… Isso vai interferindo na alma do poeta, no momento em que a gente vai escrevendo os versos.




Sobre a Princesa Isabel



Marcão. Me diz uma coisa Ana, já que você disse que teve esse contato com a Princesa Isabel… Está tendo aí um movimento para canonizar a Princesa Isabel, então eu queria saber mais sobre esse assunto, já que para você a Princesa Isabel foi um grande símbolo de expressão nacional.

Ana Paula Arendt. Sim, a Princesa Isabel é nossa Prócer, ela ajudou a fundar o Estado brasileiro. Ela trouxe para nós os valores mais importantes: liberdade, a dignidade do povo negro. Quando ela beija os filhos do José do Patrocínio, ela não está fazendo apenas um gesto político. Quando ela tira o André Rebouças para dançar, no baile da Ilha Fiscal, já que as mulheres não queriam dançar com ele no baile, ela estava fazendo aquilo de coração, né? Ela colocou tudo sob uma nova perspectiva… Como ela era a maior autoridade, sendo a sucessora de Dom Pedro II, o que ela fazia se revestia de um enorme significado. Ela do alto de sua posição reconhecia a dignidade do povo negro. Então toda a sociedade, em posição menor que a dela, tinha de reconhecer ainda mais do que ela. Acho que a importância do papel dela não é apenas escrever e assinar a Lei Áurea. Foi tratar com dignidade, com amizade, o povo negro. E a canonização dela, portanto, não tem a ver com o protagonismo dela na abolição da escravatura. Alguns movimentos negros compreenderam mal, porque para eles o povo negro foi o protagonista. Mas disso não há dúvida! Foi o povo negro o protagonista da abolição da escravatura. Não se trata de conceder o protagonismo de um evento histórico à Princesa Isabel, mas de reconhecer nela as virtudes que as pessoas deveriam ter. As pessoas que são católicas deveriam ter essas virtudes, de reconhecer a dignidade do povo negro, de ser amiga, de estar presente, de vir ao socorro quando um negro é humilhado, discriminado… Ela foi maravilhosa! Então acho que ela foi uma católica maravilhosa. E ela não se dedicou apenas à causa da abolição. Ela unificou tudo, toda a questão social recebeu uma grande atenção da parte dela. Por causa disso o Papa Leão XIII concede a ela a Rosa de Ouro, que é a maior comenda da Igreja Católica, e a trata como filha amada. Então ela carregou consigo virtudes católicas, a caridade, a fé, a esperança… Ela foi um grande exemplo para a Igreja, também. Então por conta dessas virtudes eu procurei saber mais sobre o processo de canonização dela. E foi o Professor Doutor Nery que juntou 80 mil documentos e enviou para Dom Orani, o arcebispo do Rio de Janeiro, esperando que ele pudesse dar início a esse processo de beatificação e de canonização. Eu fiquei sabendo disso por causa de uma missa, em Nossa Senhora das Angústias, o Dom Bertrand convidou, eu fui. E o Padre fez esse pedido para canonizar a Princesa Isabel. E vocês, se são católicos, vocês sabem que um pedido em uma missa é um dever nosso. Todo fiel que vai à missa, escuta a homilia e recebe dali uma missão, tem de cumprir a missão. Então eu busquei estudar a história dela, e fiz um resumo com base nas manifestações várias que encontrei a respeito dela. Nos sites de bibliotecas, de prefeituras, nos verbetes de historiadores… As pessoas gostam dela e guardam suas histórias, suas cartas… E compilei isso em um maço pequeno, e encaminhei para todos os arcebispos. Vários arcebispos responderam: “viva!”, “somos a favor”, “bendita seja essa iniciativa”… Eles abençoaram a iniciativa. Então alguns deles… O Dom Dimas, do Mato Grosso do Sul, ele chegou até a pesquisar o procedimento. Ele foi uma mão na roda, fez contato com os movimentos…. Eu acho que… Tenho muita fé de que ela vai ser canonizada. Não sei quanto tempo vai ser necessário. Mas do que li a respeito dela, para mim está claro que ela foi um exemplo de santidade. Na autobiografia dela encontramos o amor dela pela natureza, pelas pessoas, pelas crianças… É algo que fez dela alguém que se aproximou de Deus. Vejam só como ela é o antídoto para os tempos que nós estamos vivendo hoje: porque quando pedem para fazer uma estátua dela, no Corcovado, como a Redentora, ela diz: não. Façam o Cristo; é o Cristo que tem de ser louvado. Então ela já cortou ali, o culto à personalidade, a idolatria, coisas que a gente vê tanto hoje! Pessoas cultuando lideranças políticas: não, gente! Isso é pecado. Isso é pecado feio, mesmo! Isso levou muitas nações à destruição total. E a Princesa Isabel deu o bom exemplo. Ela disse não, eu não quero um culto à minha personalidade… Eu quero que seja louvado Cristo, o Cristo é que representa o caminho de amor, de respeito, a fraternidade… Então acho que esse processo de canonização faz sentido hoje. Porque ela é uma personalidade importante como exemplo para os governantes. E ninguém é santo para si mesmo: a gente é santo para servir. Todos os Santos da Igreja foram Santos para servir. O que eu argumentei na carta para o Vaticano foi que ela deveria ser canonizada por conta desse serviço que ela pode vir a prestar como intercessora pelo povo brasileiro. E foi bem acolhido. O Vaticano respondeu e com instruções. Quem quer ser voluntário, olha, basta me mandar uma mensagem, e eu envio material, para a gente melhorar a devoção a ela agora como Santa, não só como fundadora, prócer da nossa Pátria, mas também como Santa católica. Porque acima de tudo ela defendeu a Igreja Católica. O Barão de Guaracyaba, por exemplo. O primeiro Barão negro. Ele foi nomeado Barão por ela por causa de uma doação generosa que ele fez a uma das ordens mais antigas que nós temos no Brasil, os mercedários. Fundada lá pelos anos 1200, hoje cuida dos viciados em drogas, das vítimas do narcotráfico. Ela podia ter nomeado pessoas que iam ajudá-la a se manter no poder. Mas ela escolheu alguém negro e que tinha feito uma doação para a Igreja, de uma ordem que cuidava dos mais excluídos. Então ela tinha uma vocação católica muito grande, não por menos ela recebeu a Rosa de Ouro.

Marcão. Muito bom, muito bom. Inclusive eu queria, até emendando esse assunto, Ana, eu queria saber em relação à Princesa Isabel, o quanto o Brasil perdeu por não termos a Princesa Isabel como a Imperatriz, já que ela ia assumir no lugar Dom Pedro II, o quanto a mulher brasileira perdeu com a Princesa Isabel, porque ela seria uma defensora das mulheres naquele período que poderia se refletir hoje em dia?

Ana Paula Arendt. Olha, Marcos, César, Rogério. Eu fiquei impressionada, porque eu não sabia. A Princesa Isabel lutou pelo sufrágio feminino. Numa carta em que ela agradece ao Barão de Santa Victoria, por uma doação para compensar os escravos – porque a ideia dela não era só fazer a abolição, era fazer a abolição e dar um pedaço de terra para cada escravo liberto, para cada família. E ela queria fazer isso sem uma imposição do Estado, por meio de voluntários, apelando à consciência dos mais abastados. E sendo o Barão de Santa Victoria foi um dos que mais ajudaram e fez uma doação, ela escreveu uma carta de agradecimento. E nessa carta ela menciona que o próximo passo, depois da abolição, era o sufrágio feminino. Só que depois ela foi exilada. Contudo nem mesmo isso impediu que a Princesa mesmo do exílio continuasse escrevendo, não só favorecendo essa questão no Brasil, mas também na América Latina inteira. Existe inclusive um marco na Argentina, de uma Sociedade de mulheres que presta uma homenagem à Princesa Isabel pela atuação dela em favor da igualdade e do sufrágio feminino. Então das cartas, acho que teria que procurar, nesse imenso levantamento que o Dr. Nery fez… Ali com certeza os pesquisadores podem encontrar material de que ela desempenha um papel importante atuando em favor da dignidade feminina. Agora o Sr. mencionou uma coisa diferente: o Sr. mencionou uma coisa ainda mais inteligente. SE ela tivesse governado o Brasil, se tivesse sido reconhecida, qual teria sido o impacto disso para a sociedade brasileira? Você fez uma pergunta brilhante, que também fez Max Weber, um historiador, cientista político, sociólogo… Ele ensinou que devemos olhar a História pensando na possibilidade objetiva, o que poderia ter sido. Ou seja: quais foram os fatos necessários sem os quais algo não teria acontecido. A gente vê essa situação hoje de violência, de ofensa a mulheres… Se nós tivéssemos concordado, aceitado de bom grado, que fôssemos governados por uma mulher doce… Mas ela não foi aceita pelos homens daquela época! Eles estavam muito preocupados em suceder um ao outro. Essa disputa de egos, na alta sociedade… Eles não a respeitaram, não respeitaram a autoridade da Princesa. Eu tenho certeza absoluta, e concordo com vocês que, se a Princesa Isabel tivesse sido reconhecida como Imperadora, isso teria encaminhado o governo a uma mentalidade mais favorável para garantir a segurança e a dignidade das mulheres. Dos negros, e também das mulheres. Mas entendam que essa questão ainda não se encerrou. Compreender a nossa própria História é um exercício permanente. É possível resgatar a importância dela e isso pode ter um efeito benigno e necessário hoje. Então o que preparei, para distribuir em devoção a ela, é uma oração, um pedido de graças e de intercessão dela pela população negra, de mulheres e de crianças. Vou buscar aqui para vocês.

César. O Tales está chegando por aqui. Ela é diplomata, escritora, a Ana Paula, então ela tem livros, ela tem um site, até coloquei o site, aqui. Estamos tendo um pouquinho de dificuldade na questão do áudio, mas está dando para entender, para ouvir, o pessoal que está aí em casa pode pôr um fone de ouvido que aí dá para ouvir bem. E já, já, eu vou fazer uma questão que o Rogério pediu para fazer a ela, a respeito de literatura, sair um pouquinho desse foco sobre a Princesa Isabel, se bem tá muito bom esse assunto, mas fique à vontade, Ana Paula, você quer mostrar o que você foi buscar? Ela também está com delay, por isso a demora.

Ana Paula Arendt. Então vejam, quem quiser receber estes santinhos, são santinhos simples… A ideia é a gente preservar a memória dela. Ela dizia: “se mil tronos eu tivesse, mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil”. Então ela era uma pessoa desapegada do poder. Defendia que a missão de um governante é servir ao povo. É libertar escravos, libertar as pessoas que são oprimidas e perseguidas pela ação ou pela falta de ação do Estado. O Padre Júlio Lancelotti fala que nosso problema não é o comunismo, é o escravismo. E acho que ele tem razão. E qual o motivo para esse escravismo? O Estado trata o cidadão como se fosse um empregado dele, um servo… Nós trabalhamos quase metade do ano para pagar impostos, temos um fardo grande e qualquer coisa que nós fizermos é alvo de questionamento e punição… Então acho que a figura da Princesa Isabel vem para resgatar um pouco disso, também, dessa libertação, digamos, de um Estado opressor, autoritário, que autoriza massacrar pessoas, reputações. Se Deus quiser, há de ser aberto o processo de canonização dela e será algo para nos inspirar, ela poderá interceder por nós desde a eternidade, desde onde a Verdade é escrita. Eu sou católica, então eu creio que desde a eternidade os Santos, estando mais próximos de Deus, são capazes de ser nossos mediadores, eles podem nos auxiliar em nossos problemas. Quando vocês me convidam para falar dela, vocês a estão evocando, evocando alguém que realmente se importou conosco, com o nosso bem. Ela estando mais próxima de Deus, pode interceder favoravelmente pela alma das pessoas. A alma das pessoas é onde as coisas são decididas, é onde estão as questões pouco resolvidas que fazem procurar problemas e justificativas para fazer mal ao outro. O Estado é feito por pessoas em cargos de autoridade. A autoridade que está no Estado, portanto, é que precisa ter sua alma liberada dessa necessidade de punir, de massacrar quem está mais vulnerável, de patrulhar o próximo. A figura dela é uma figura tão leve… É uma delícia estudar a vida da Princesa Isabel. Recomendo a todo mundo mergulhar um pouco mais na autobiografia dela, nas dificuldades que ela viveu… Ela sofreu muito. E isso é típico dos Santos, viver grandes sofrimentos e ainda assim guardar a fé. Ela perdeu dois filhos. Isso é ser atravessada por uma espada, duas espadas, perder dois filhos, mesmo já adultos, numa guerra. E olha a preocupação dela quando recebeu a notícia de que seria exilada com a sua família: na autobiografia ela conta que a primeira preocupação foi “não desejar nenhuma felicidade menor para o meu País”. Então lemos uma coisa assim, linda… Mesmo durante um grande sofrimento, ela teve grandes iluminações. Eu torço para que ela seja canonizada. Para que ela seja reconhecida, por toda a sociedade e pela Igreja Católica. Nós que vamos à missa temos de reconhecer alguém que foi bastante fiel à sua fé.

César. Aproveitando esse gancho da Princesa Isabel, eu coloquei na tela, aqui, “Canto para a Princesa Isabel”. É uma poesia que você fez, para a Princesa Isabel, é isso? Ana?

Marcão. Viu, Ana, essa poesia na sua página, “Grã-Maestra”… “Canto para a Princesa Isabel”… Qual foi a inspiração em relação a essa poesia para a Princesa Isabel?

Ana Paula Arendt. Rogério, César, Marcos. É isso. Preservar a memória. Dia 14 de novembro é o aniversário da morte dela. Como vocês sabem, o dia que se comemora o Santo é o dia da morte do Santo. Então ela faleceu no dia 14 de novembro. Essa poesia é uma homenagem para o próximo dia 14, a gente vai celebrar a missa dela no Santuário Dom Bosco. Vocês sabem que ela foi muito amiga de São João Bosco, a Princesa Isabel. Dom Bertrand deu uma entrevista ao site “Catolicismo”. É uma entrevista bastante interessante, que fala detalhes que eu não sabia, da amizade dela, com João Bosco, com os salesianos… Ela mandou que eles viessem para montar escolas, para que os negros libertos tivessem uma profissão. Então os salesianos vieram para o Brasil a mando dela. Ela trocou cartas com São João Bosco, e essas cartas são guardadas pelos salesianos, se não me engano em Barbacena. Então dia 14 a gente vai fazer uma missa no Santuário Dom Bosco em Brasília. Esse poema é um poema que eu fiz para o Reitor do Santuário Dom Bosco. A gente esteve juntos e ele quer muito vê-la canonizada, por conta dessa amizade entre São João Bosco e a Princesa Isabel. Então a gente já estava até planejando que a gente ia fazer uma imagem dela perto do João Bosco, os dois amigos… Santos amigos. E outro detalhe, também que o Dom Bertrand contou, nessa entrevista, que eu não sabia, é que ela foi quem teria escrito que fosse incluído o mistério da Assunção de Maria. Vocês sabem, existe a festa da Ascensão de Cristo, e depois Deus Pai e Deus Filho, Cristo, elevam-na, Maria é assunta aos céus. E Dom Bertrand conta que ela teria escrito para o Papa para que esse mistério pudesse ser incluído no rosário, no terço que é rezado pelo mundo inteiro. Eu acho que a gente deveria recuperar isso, pesquisar nos arquivos. Padre Aleixo queria ir comigo visitar o Núncio, e pedir um levantamento das cartas dela ao Papa no Arquivo do Vaticano. A Biblioteca do Vaticano foi até pouco tempo (talvez ainda) dirigida pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça, e ele me escreveu. Escreveu agradecendo pela novidade, pela iniciativa, e dizendo que ele guarda o telegrama dela enviado ao Papa Leão XIII comunicando a assinatura da Lei Áurea. Ele diz que é um dos grandes tesouros da Biblioteca do Vaticano. É uma forma também de divulgar um pouco da vida dela, das palavras dela, e vocês vão encontrar alguns versos onde eu só incluí a rima, mas as palavras originalmente são da autobiografia dela. E ela conta da infância, de quando ela via o Pão-de-Açúcar, o Corcovado, onde depois ela mandou erguer o Cristo Redentor, de quando ela tomava o vapor da Marinha… E também para defender um pouco o legado dela. Ela era um pináculo que fazia com que os aristocratas tivessem humildade, porque ela era humilde. E a gente conversou, né. Ela instituiu uma dignidade para todos, fossem brancos ou negros. Os negros se tornaram finalmente titulares do Brasil graças também a esse esforço dela. Eu li que existem historiadores que dizem que ela foi uma dona-de-casa, que não teria feito nada… Isso é um disparate. Ela demitiu o Cotegipe, ela governava com mão de ferro. O Barão de Cotegipe não se movia, a Lei Áurea não avançava, e ela o substituiu. Depois disso ele se sentiu constrangido na frente de toda a corte. Tanto que ele lançou uma maldição sobre ela, “Vossa Alteza perde o trono”. Aí é quando ela responde como grande estadista, “mil tronos eu daria, se mil tronos eu tivesse”, se colocando acima do interesse próprio. Ela trabalhou como Senadora. Ela foi a primeira Senadora mulher, né? Ela mesma conta que ia todos os dias para o Gabinete e ela diz que lia todos os jornais, acompanhava com muito interesse. Fazia viagens com esse propósito. Realmente ela estava engajada no que o Papa via como um necessário avanço. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravatura. Era uma vergonha. O Charles Darwin, quando passou pelo Brasil, escreve sobre o terror que ele passou, de ver seres humanos sendo espancados, uma mulher que se atirou no precipício porque não queria voltar para o cativeiro…Nas palavras dele, fosse branca, seria uma matrona romana mártir da liberdade, mas ele anota que ninguém liga… Então ele escreve com muita emoção sobre essa realidade. E o Imperador Dom Pedro II era amigo de grandes cientistas, ele era um cientista que acolhia naturalistas, uma pessoa de mente mais avançada que os brasileiros querendo explorar a mão de obra escrava. Então é isso: esse poema é uma maneira de contar o que encontrei de mais interessante sobre a vida dela.



Sobre literatura e livros


César. Ana Paula, a pergunta do Rogério aqui, a respeito da… Como surgiu, assim, quais são os escritores que te levaram a esse fascínio pela literatura, por escrever livros… Quais foram os autores que você leu quando criança, o que mais te encantou? Os autores, ou autoras.



Ana Paula Arendt. Ah, Rogério, César. Eu fui uma criança muito feliz. Na minha época não havia nas escolas apostilas, eram livros, mesmo. Tive sorte, meus professores eram muito bons. Eu lia Cecília Meireles, Monteiro Lobato, Ziraldo… Eu nasci e cresci em Rondônia, em Porto Velho não tinha muita opção. Naquela época tinha um cinema, eram um ou dois filmes, por muitos meses… A gente assistia até mais de uma vez o mesmo filme, decorava as falas. E tem até uma história interessante sobre cinema, mas numa outra oportunidade eu conto para vocês. E tinha uma Biblioteca. Eu ia todo dia. Me chamavam de “astronauta”, porque eu sempre perguntava se tinha alguma novidade sobre cosmologia, criação do universo e espaço sideral, eu gostava de Júlio Verne, li tudo dele. E depois, li os filósofos, já que não tinha muita novidade. Eu lia todo dia, ia todo dia à biblioteca de bicicleta, era a minha curtição. Esse tempo passou, veio a maternidade, as crianças, a carreira profissional… E eu tive um momento desses de cansaço, esses momentos em que a gente precisa se reabastecer nessas memórias mais doces. E as memórias mais doces são as memórias de infância. Eu fui revisitar os livros de que eu mais gostava, de poesia, de filosofia. Então, vamos criar, vamos fazer algo novo. O Itamaraty tem uma tradição de grandes escritores, o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, que foi casada com um diplomata e viveu a carreira diplomática, o João Cabral de Melo Neto… Eu nunca tive essa ambição, de ser uma escritora como eles. Eu escrevo para a própria diversão e entretenimento. Se bem sei que nenhum escritor começou já escrevendo bem, a gente vai aprendendo com o tempo. Eu nunca liguei para isso, fui escrevendo e alguns poemas saíram bons. Dizem que “ah, ser bom escritor é jogar fora muitas páginas”… Mas eu não jogo fora nada do que eu escrevo. Eu acho que tudo faz parte de um crescimento, de um aprendizado… Às vezes eu volto em um poema antigo e encontro coisas que eu não tinha percebido. Então eu tento deixar uma obra para o futuro. Vocês encontram aí um epitalâmio, talvez o primeiro da história da literatura universal escrito desde a perspectiva feminina. Tem o epitalâmio da Sappho, mas ela é uma poeta de voz, alguns dizem, masculina. Tem o do Spenser, do Fernando Pessoa, e você encontra o meu, na minha página, “As veneráveis virtudes do homem”. Um epitalâmio é um poema de bodas, sobre o amor legítimo, uma homenagem ao casamento, aos noivos. E agora eu estou trabalhando num projeto que prometi para o Dom Bertrand. Desse contato saiu uma ideia de escrever um livro em verso sobre a História do Brasil. Neste momento eu estou escrevendo “O livro das limitações”. É um épico sobre as nossas características, a nossa identidade. Acho que a gente tem de tentar fazer algo novo, ousar, para as novas gerações amarem a própria terra, amarem a própria história. É um trabalho um pouco extenso de pesquisa, está demorando, mas acho que vai sair um bom trabalho.

César. Ô Marcão, quer fazer aí uma última pergunta para ela?




Sobre monarquia e república no Brasil




Marcão. Eu queria saber da Ana qual é a visão dos colegas dela em relação ao Brasil Império e se ela acredita na volta da monarquia no Brasil.

Ana Paula Arendt. Ah… Você sabe que… Eu vou parar um pouquinho, fazer um silêncio e ficar pensativa, porque… O Itamaraty tem uma cultura bastante aristocrática. Por conta da carreira, da hierarquia, dos Embaixadores… Boa parte dos Embaixadores são descendentes da nobreza brasileira. Eles trazem consigo os símbolos e os dons disso. É um imenso substrato para novas criações políticas. E o pensamento político está sempre evoluindo. Hoje nós não vivemos o melhor momento para a instauração da monarquia. Porque no pensamento político o ser humano se tornou um animal. Mas o ser humano é muito maior do que isso! No pensamento político institucionalista, tudo se resume a incentivos e punições. As instituições estão no centro da ação política e da atenção dos juristas, dos cientistas políticos de hoje. Mas nem sempre foi assim... Nos séculos passados nós temos pensadores que tinham uma maneira diferente de abordar os problemas relacionados ao Estado, e eles buscavam estar baseados em uma perspectiva mais humana, com fundamento no direito natural, na natureza humana, para encontrar a melhor maneira de governar. Agora, quando você fala monarquia, está falando de um regime político. Mas existem diversos tipos desses regimes políticos. Existem regimes políticos onde o monarca tem um papel político diferente do que o da nossa anterior monarquia. Na monarquia britânica, você tem Runnymede, o lugar onde o Rei assinou a Magna Carta, na presença dos barões revoltosos. Não existiu nem existe isso no Brasil, nós não temos um momento político de dosagem e harmonização…. Houve ali as Cartas de Lisboa, quando o Rei português se viu limitado por uma Constituição… Mas aquilo está muito longe de ser para nós como a Magna Carta inglesa, que tem acho três cláusulas válidas até hoje. Desde 1215… Assim, mesmo no regime que temos hoje, republicano, nós herdamos uma cultura monárquica muito forte, uma herança muito pesada dessas estruturas. Mesmo que o nosso regime político tenha se declarado republicano, por mais que tenhamos hoje uma Constituição que não reconhece do Rei os direitos, se vocês olharem para a nossa prática, poderão notar que o nosso Presidente assumiu uma certa função representativa real. Sempre paira acima das autoridades uma autoridade maior que tem a palavra final que serve de garantia. Por vezes essa autoridade maior é cristalizada no poder do Presidente, por vezes no STF, por vezes no Congresso, na Vice-Presidência… Hoje temos, na prática, um palimpsesto. Então eu não acho que a gente deva encarar as coisas como um preto no branco. Muitas das estruturas que nós tínhamos no Brasil permanecem até hoje; e por outro lado existem as monarquias, como o regime político britânico, que apesar de se constituir um regime monárquico, nele o Parlamento e os parlamentares, e o peso do cidadão nas decisões, são muito mais fortes. No Brasil, hoje, essa não é uma discussão popularizada, de como as instituições poderiam funcionar melhor para o cidadão. Mas eu acho que ela vai ser inevitável, porque a República se tornou mais onerosa que a Monarquia que tínhamos. Então: se houve a Inconfidência Mineira, lá atrás, por causa de cobrar um imposto que era metade do que é cobrado hoje, essa instabilidade política que vemos hoje vem disso. É preciso reajustar esse contrato social entre o cidadão e o Estado, e eu acho que Família Real brasileira conta com uma reputação muito boa. Eles são muito cultos, valorizam as ciências, as letras, as pessoas… Eu acho que vai ser naturalmente que isso vai acontecer: o pensamento político vai evoluir, nós vamos amadurecer, as instituições não vão precisar ser alteradas e ainda assim nós vamos encontrar uma fórmula… Não sei se monárquica, mas de alguém de alta nobreza, vai ter uma participação maior no Conselho de Estado, na preservação do nosso Patrimônio. Eu acho que os monarquistas estão caminhando no rumo certo.


Marcão. Muito bom.

César. Ótimo. Perfeitas palavras aí, da Ana Paula. Quem quiser acompanhar o trabalho da Ana Paula, nós temos aqui o site dela, é www.anapaulaarendt.com. Tem aqui o Canto para a Princesa Isabel, vários trabalhos aqui. Muito interessante. E vamos acompanhando. Tem também o Instagram, quem quiser segui-la. Ana Paula, tem também o Instagram, para o pessoal conseguir acompanhar.

Ana Paula Arendt. Sabe que eu não tenho Whatsapp, nem página literária no Instagram… Eu tenho Facebook. Eu sou de uma era pré-internet, nasci na década de 1980, datilografava. Eu não entendo ainda muito bem sobre tantas redes sociais, já que são todas praticamente do mesmo dono, nem entendo por que precisamos ter mais de uma…Sou pré-digital. Mas tenho página literária no Facebook: #anapaulaarendtpoesia. Tudo junto. É uma homenagem à minha escritora favorita, a Hannah Arendt.


César. Então é isso. Quero pedir desculpas, porque o Rogério acabou não ouvindo nem nós… No início da live ele estava ouvindo pelo menos a gente, mas daí… Eu não sei se houve uma interferência na internet, alguma coisa… Então ele saiu… Ele saiu e voltou, tentou voltar, mas mesmo assim não estava conseguindo ouvir. Então por isso ele deixou a sala, mas ele está monitorando, acompanhando, compartilhando… Foi muito boa, muito boa..

Ana Paula Arendt. Rogério já foi para a balada.

Marcão, César. Risos.


Ana Paula Arendt. Fui falar em Runnymede, aí Rogério fugiu.


César. Risos. É, saiu de fininho e foi para a balada, tá certo… Risos. Mas… de certa forma, de certa forma a gente agradece a todo mundo que esteve conosco aqui… Ô Marcão, obrigado aí pela sua participação, sempre comentando, sempre abrilhantando assuntos relevantes… E parabéns pelo canal, também, pelo seu trabalho, pelo seu canal…Nestas últimas semanas o canal tem crescido bastante, e isso é muito bom. A gente sempre torce pelo crescimento dos parceiros. E você está de parabéns pelo trabalho que você desempenha divulgando a causa monárquica, mas sempre antenado em todos os assuntos políticos, nacionais e internacionais, também, parabéns pelo seu trabalho. Suas considerações finais, Marcão.

Marcão. Eu quero agradecer mais uma vez pela oportunidade. Gostei muito da linha, o encanto… Não é à toa que ela é uma amiga querida do Jean Tamazato. Jean foi meu amigo de infância, de escola, foi ele que me trouxe para o movimento. Ele que me [ inaudível] absolutamente tudo. E nós começamos a divulgar a monarquia em 1995, quando eu comecei a ter internet a cabo em casa, a gente começou a divulgar tudo… É logico o Jean participar de tudo isso aí. O meu canal está crescendo mas eu também atribuo esse crescimento ao César, ao Rogério, a todos os meus inscritos e a todos os monarquistas que vieram desde o começo do canal… Ele começou a trazer pessoas… Pelo menos uma pessoa faleceu, né, que eu entrevistei, que foi o Presidente monárquico do Rio de Janeiro… Então eu lembro um filme na minha cabeça, né? Porque eu estava querendo mesmo fazer um canal para trazer a monarquia e poder dar espaço para todos falarem, se expressarem. Fico muito contente com o crescimento da rádio. Tenho certeza que a rádio vai crescer mais, vai se expandir mais e vai trazer pessoas tão interessantes como a Ana. A Ana realmente me surpreendeu, agradeço demais a ela. Até mesmo por ter me recebido lá no Instagram dela, porque não é uma coisa fácil, uma pessoa reservada para caramba… Então eu agradeço pela atenção dela, eu vi que ela respondeu e poxa, eu já vi essa moça em algum lugar. Será que é a amiga do Jean? Então eu entrei, enviei uma mensagem e ela respondeu. Eu fiquei muito feliz, porque às vezes a gente corre, entra em contato com as pessoas e as pessoas não estão nem aí, ainda mais com pessoas estranhas na vida da gente… E simplesmente não querem. Mas eu agradeço muito mesmo. A Ana, como eu falei, já está convidada aí para vir no meu canal, para divulgar as ideias dela, para falar sobre a diplomacia… Realmente é um trabalho que me encanto. Porque a monarquia existia por causa da diplomacia, a monarquia é diplomacia.

César. Exatamente. Ana, eu gostaria que você deixasse uma mensagem final, falando o que você quisesse para as mulheres, para as pessoas, para os escritores… Deixar a sua mensagem de otimismo, de esperança, de carinho para todo mundo que está nos ouvindo. Se ela não travou ela vai falar com a gente…

Ana Paula Arendt. Eu queria agradecer a vocês pelo convite para participar deste encontro. Foi muito bom conhecer novos amigos. Dr. Jean tem muito bom senso, uma figura moderada e muito bom saber que temos amigos em comum. E vou chamar um técnico para dar uma olhada nessa sobrecarga, né, do wi-fi, para que a gente possa ter, num eventual próximo encontro um vídeo e som de melhor qualidade. Peço desculpas a vocês.

César. Essas coisas de tecnologia acontecem, certa vez a gente foi fazer uma entrevista, a gente tentou fazer de tudo e a gente não conseguiu fazer a entrevista.

Ana Paula Arendt. Eu desejo a vocês uma excelente noite e final de semana. Que vocês possam curtir os amigos e a família sem que nada controverso tire a nossa paz, olhar para o nosso futuro cheios de boas referências da nossa História conjunta… Pensar o nosso futuro e transmitir os bons valores que compartilhamos às próximas gerações.

César. Tá certo. A pedido do Rogério e até reforçando o nosso papel de divulgadores, estamos criando o Natal monárquico do Rogério, uma ação social que o Rogério tem há vários anos. Quem quiser colaborar tem que ser logo, o Rogério já tem que comprar todos os produtos necessários para as doações e tem o pix do Rogério Mendes, cuja chave é o celular: 11 98356 9988. Faça sua doação, abra o seu coração, ajude a gente a ajudar várias famílias e várias crianças nesse Natal de 2022. Natal Solidário 2022, 200 anos da Independência do Brasil. Então colabore com a gente e vamos fazer aí um Natal, um final de ano mais feliz para as famílias carentes do nosso Brasil, tá bom? Mais uma vez agradecendo ao Marcos Ferrari, mais uma vez agradecendo a Ana Paula Arendt, quem quiser acompanhar, segue aí o site e o Facebook dela. Nós vamos ficando por aqui. Fiquem com Deus, acompanhem a nossa programação 24 horas, agradeço quem está nos ouvindo através do site e também através dos aplicativos da rádio e vocês aqui do YouTube e Facebook da Rádio. Uma boa noite para todos vocês, fiquem com a gente e tchau, tchau, gente, valeu!