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O Jardim das Sapucaias






Foto: Sapucaia na Asa Norte de Brasília, Brasil, Flávio Cruvinel Brandão, FlickR.



O Jardim das Sapucaias* Por Ana Paula Arendt



Quero plantar um jardim de sapucaias, o paraíso nativo, e dentro dele um vergel com frutos que te saciam. Um vasto repertório das coisas mais vesanas** e variadas que te inflamam. Espaço que encontrei entre o delírio e o sonho, de te amar em todos os lugares, por causa dos teus dias sem horas; de firmar o solo onde crescem tuas flores, o meu solo. Descobri de onde vem a tua fragrância de ser amado: da caravana desta terra, paragem onde as pétalas das flores apertam e se desdobram para pedir mais empenho. Canção e dança… No corpo desse jardim há escamas que em se esfregando vão caindo uma a uma, de balanço dos galhos, dos pássaros. E sou o peixe macio sentado em teu prato liso, de folha e vime. O presente está embrulhado em folhas de bananeira, suaves e suculentas, dentro dele o que não se sabe: só se sabe que é um presente. Um presente, algo dado, um sintoma de alegria com o que não se sabe; o alívio em descobrir o que é. Um presente para desembrulhar com os dedos e vestir com os teus olhos de mil espelhos. Dentro do presente a janela dos teus olhos plantando este jardim de sapucaias… Relva feita de contar os fios de teus cabelos um a um, de adormecer impercebido, de ficar esparramado. De saber que o número de fios de teus cabelos é o mesmo número de folhas rosadas dessas árvores… No horto eu sigo o fio de vereda entre os arbustos cobertos de orvalho, pisando um chão recoberto de flores frescas: igarapé de deitar, abrir e estender os teus braços, de roçar as tuas nervuras. É o dia desfiado com primeiro amor que nunca se perde: há uma árvore que chove e faz nascer os rios. Início onde as coisas começam, aonde elas tornam; e recomeçam, para dar nas mãos verdura, casca, fruto, pele. Nesse jardim paira a nuvem escura antes que chove, lugar onde eu encontro o teu peito, as cerejas que pendem dos galhos. Os manacás de cheiro brotam renovos e crescem: no Ajupiá, não há fruto proibido… Lugar de ecos e grito incontido de gozo esplêndido… Eis uma pétala que caiu de uma rosa branca sobre os teus lábios, querendo ser um dos teus lábios. O que se faz quando se chega ao cume das montanhas, no auge de tudo que se pede? O que se faz depois que o movimento impetuoso nos plantou um no outro, depois que toda sede foi esvaziada? Crava em teu abrigo, Amor, um jardim de sapucaias, um vergel de frutos que nos saciam, com carne, suco e água, de onde eu tiro os licores e os elixires, dali onde eu possa colher e abrir castanhas para suplicar às amêndoas. Onde os homens têm sede e encontram água, têm fome e recebem frutos, onde a mão de ternura faz cessar o vagido plangente… Paraíso que permanecerá após nossa morte.


* “Sapucaia” (nome científico: Lecythis pisonis) árvore que, em tupi, significa “ fruto que faz saltar o olho”. A depender da estação, suas folhas possuem uma coloração rosa, depois mudam para o verde, e logo após, para cor avermelhada ou vinho, e em seguida mudam para a cor castanho-dourada. Os índios tupis esperançavam a vida após a morte e divisavam um paraíso, o Ajupiá, um jardim de sapucaias todo feito de dança e festa, um recanto de encontro dos espíritos. (Darcy Ribeiro, O povo brasileiro).


** "Murchem prados, a flor desfaleça,/ E o regato que límpido corre, /Mais te acenda o vesano furor" (Gonçalves Dias, I -Juca Pirama).



Ana Paula Arendt é o pseudônimo literário de R. P. Alencar, cientista política, poeta e diplomata brasileira. Membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Letras, e da NY Academy of Sciences.



Foto: Geraldo Nunes 09/2015 Sapucaia na SQN 110, Asa Norte, Brasília, Brasil.





Foto: Alexandre Marino, Sapucaia em Brasília, Brasil, Flickr.

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