O Ódio ao Feminino
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O ÓDIO AO FEMININO
Ana Paula Arendt*
Fico um pouco estarrecida ao ler artigos e comentários que desprezam a eleição da deputada federal Érika Hilton para presidir a Comissão dos Direitos da Mulher na nossa Câmara baixa. A reclamação de que uma mulher trans não poderia defender os direitos das mulheres é muito fraca. Ou não vimos na ONU, há alguns anos, uma campanha internacional — “He for She”? Foi uma iniciativa muito apreciada mundialmente. Ora: se os homens podem defender os direitos das mulheres, por que uma mulher trans não poderia? É preciso ser mulher para defender os direitos da mulher? De onde se tirou isso?
Essa perspectiva que divide as temáticas de gênero em clube do bolinha e clube da luluzinha convenientemente reserva os temas “duros” — economia, defesa e segurança pública — aos homens, uma abordagem que resulta na desigualdade persistente e na exclusão das mulheres de espaços decisórios importantes. O que se está argumentando, implicitamente, é que as mulheres devem ter o seu “cercadinho” na República. Mas, se uma mulher pode presidir a CCJ ou a Comissão de Relações Exteriores e Defesa, por que um homem não poderia defender os direitos das mulheres? E, se um homem e uma mulher podem, por que uma mulher trans não poderia?
Temos a perpetuação de uma perspectiva infantil que insiste em dividir a sociedade entre meninos e meninas — como se ambos os sexos não pudessem trabalhar juntos nem conviver em paz. Mais ainda: como se todos tivessem de se encaixar em caixinhas binárias, rosa e azul, como se não existissem o verde, o branco e o amarelo. Todos nós temos um pouco de masculino e feminino dentro de nós, em proporções variáveis conforme diferentes circunstâncias. À falta de reconhecer isso, surgem tantos conflitos desnecessários.
A colaboração entre homens e mulheres é indispensável para garantir o respeito aos direitos das mulheres. E as mulheres sempre foram fundamentais na garantia dos direitos da comunidade LGBTIQIA+. Já era hora dessa comunidade vir também nos apoiar nesse debate, tendo em vista que têm tido muito êxito em suas propostas.
Além disso, convenhamos: algumas críticas à escolha da deputada Érika Hilton para presidir a Comissão dos Direitos da Mulher também escancaram transfobia. A biologia de uma pessoa jamais poderia justificar a exclusão de alguém do exercício de um papel público. O papel de presidir uma comissão é político, e o sexo ou a aparência — ser XY, XX ou XYZ, ter cabelo loiro, sarará, liso ou branco — em nada interferem no que a pessoa pode dizer ou defender como agente público.
Uma pessoa combativa nos litígios pode fazer um ótimo trabalho para avançar, por meio do sistema legal, os nossos direitos. Com frequência ocorre o contrário: os instrumentos legais são manuseados por homens, detentores de maiores recursos financeiros e conexões sociais, para solapar ou minimizar reivindicações femininas. Uma figura com o perfil da deputada Érika Hilton poderia, justamente, confrontar essa dinâmica.
Por que então tantas pessoas resolveram cismar com o sexo biológico dela? Alguns de seus críticos dizem isso abertamente: que ela não poderia exercer um cargo público por ser uma mulher trans. Reduzem a pessoa a uma informação biológica, descartando sua capacidade e empobrecendo a discussão sobre os direitos da mulher.
Ressalte-se que inúmeras pessoas se acharam no direito de atacá-la publicamente por sua condição biológica — uma realidade que nós, sendo mulheres, conhecemos bem. Nesse ponto, a experiência de Érika Hilton aproxima-se bastante da nossa.
Disseram que ela é autoritária; que ataca mulheres; que usa dinheiro público para estética; que processa quem discorda; que não respeita a diversidade. Não se pode negar seu caráter belicoso nem sua vaidade, nem que tenha processado uma feminista ao constatar que lhe foi negada publicamente a identidade que o próprio Estado brasileiro lhe concedeu. Mas ali, a deputada reivindicava um direito: que sua identidade fosse respeitada — uma coerência mínima do Estado brasileiro. Ou você não teria direito de reclamar, Leitor, se uma feminista dissesse publicamente que a sua identidade de gênero não é a que você declara sobre si mesmo? Cabe compreender esse inferno que as pessoas querem fazer da vida dos outros para se achar mais certas do que os outros.
Tampouco podemos ignorar que, especialmente na política, as pessoas levam tempo para aprender a exercer o novo papel que assumem: para expor ideias, entender o terreno em que pisam e assimilar a complexidade das reivindicações. Fustigar alguém por suas características, antes mesmo que tenha tempo de apresentar sua agenda, é uma violência gratuita.
Não resta então outra opção, mesmo para quem é católica, mesmo para quem se atém à verdade científica ou discorda do uso de recursos públicos para fins particulares, senão opor-se a essa exclusão e defender que se dê uma chance à deputada. Pois é descabido excluir uma pessoa — homem ou mulher — por assumir um papel feminino.
No fundo, é isso que está em jogo. O que Érika Hilton enfrenta não é apenas um debate político, mas algo mais profundo: o velho ódio ao feminino. Um ódio particularmente dirigido à mulher que se defende — e mais ainda àquela que se levanta para defender outras mulheres.
Se a deputada conseguir superar essa barreira — a expectativa de que mulheres devam permanecer dóceis, saciadas e conformadas mesmo quando são atacadas — já terá feito muito para avançar os direitos de todas.
*Ana Paula Arendt é cientista política, poeta e diplomata. As suas opiniões pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.



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