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O Ódio ao Feminino

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura


O ÓDIO AO FEMININO

Ana Paula Arendt*


​Fico um pouco estarrecida ao ler artigos e comentários que desprezam a eleição da deputada federal Érika Hilton para presidir a Comissão dos Direitos da Mulher na nossa Câmara baixa. A reclamação de que uma mulher trans não poderia defender os direitos das mulheres é muito fraca. Ou não vimos na ONU, há alguns anos, uma campanha internacional — “He for She”? Foi uma iniciativa muito apreciada mundialmente. Ora: se os homens podem defender os direitos das mulheres, por que uma mulher trans não poderia? É preciso ser mulher para defender os direitos da mulher? De onde se tirou isso?


​Essa perspectiva que divide as temáticas de gênero em clube do bolinha e clube da luluzinha convenientemente reserva os temas “duros” — economia, defesa e segurança pública — aos homens, uma abordagem que resulta na desigualdade persistente e na exclusão das mulheres de espaços decisórios importantes. O que se está argumentando, implicitamente, é que as mulheres devem ter o seu “cercadinho” na República. Mas, se uma mulher pode presidir a CCJ ou a Comissão de Relações Exteriores e Defesa, por que um homem não poderia defender os direitos das mulheres? E, se um homem e uma mulher podem, por que uma mulher trans não poderia?


​Temos a perpetuação de uma perspectiva infantil que insiste em dividir a sociedade entre meninos e meninas — como se ambos os sexos não pudessem trabalhar juntos nem conviver em paz. Mais ainda: como se todos tivessem de se encaixar em caixinhas binárias, rosa e azul, como se não existissem o verde, o branco e o amarelo. Todos nós temos um pouco de masculino e feminino dentro de nós, em proporções variáveis conforme diferentes circunstâncias. À falta de reconhecer isso, surgem tantos conflitos desnecessários.


A colaboração entre homens e mulheres é indispensável para garantir o respeito aos direitos das mulheres. E as mulheres sempre foram fundamentais na garantia dos direitos da comunidade LGBTIQIA+. Já era hora dessa comunidade vir também nos apoiar nesse debate, tendo em vista que têm tido muito êxito em suas propostas.


​Além disso, convenhamos: algumas críticas à escolha da deputada Érika Hilton para presidir a Comissão dos Direitos da Mulher também escancaram transfobia. A biologia de uma pessoa jamais poderia justificar a exclusão de alguém do exercício de um papel público. O papel de presidir uma comissão é político, e o sexo ou a aparência — ser XY, XX ou XYZ, ter cabelo loiro, sarará, liso ou branco — em nada interferem no que a pessoa pode dizer ou defender como agente público.


​Uma pessoa combativa nos litígios pode fazer um ótimo trabalho para avançar, por meio do sistema legal, os nossos direitos. Com frequência ocorre o contrário: os instrumentos legais são manuseados por homens, detentores de maiores recursos financeiros e conexões sociais, para solapar ou minimizar reivindicações femininas. Uma figura com o perfil da deputada Érika Hilton poderia, justamente, confrontar essa dinâmica.


​Por que então tantas pessoas resolveram cismar com o sexo biológico dela? Alguns de seus críticos dizem isso abertamente: que ela não poderia exercer um cargo público por ser uma mulher trans. Reduzem a pessoa a uma informação biológica, descartando sua capacidade e empobrecendo a discussão sobre os direitos da mulher.


​Ressalte-se que inúmeras pessoas se acharam no direito de atacá-la publicamente por sua condição biológica — uma realidade que nós, sendo mulheres, conhecemos bem. Nesse ponto, a experiência de Érika Hilton aproxima-se bastante da nossa.


​Disseram que ela é autoritária; que ataca mulheres; que usa dinheiro público para estética; que processa quem discorda; que não respeita a diversidade. Não se pode negar seu caráter belicoso nem sua vaidade, nem que tenha processado uma feminista ao constatar que lhe foi negada publicamente a identidade que o próprio Estado brasileiro lhe concedeu. Mas ali, a deputada reivindicava um direito: que sua identidade fosse respeitada — uma coerência mínima do Estado brasileiro. Ou você não teria direito de reclamar, Leitor, se uma feminista dissesse publicamente que a sua identidade de gênero não é a que você declara sobre si mesmo? Cabe compreender esse inferno que as pessoas querem fazer da vida dos outros para se achar mais certas do que os outros.


​Tampouco podemos ignorar que, especialmente na política, as pessoas levam tempo para aprender a exercer o novo papel que assumem: para expor ideias, entender o terreno em que pisam e assimilar a complexidade das reivindicações. Fustigar alguém por suas características, antes mesmo que tenha tempo de apresentar sua agenda, é uma violência gratuita.


​Não resta então outra opção, mesmo para quem é católica, mesmo para quem se atém à verdade científica ou discorda do uso de recursos públicos para fins particulares, senão opor-se a essa exclusão e defender que se dê uma chance à deputada. Pois é descabido excluir uma pessoa — homem ou mulher — por assumir um papel feminino.


​No fundo, é isso que está em jogo. O que Érika Hilton enfrenta não é apenas um debate político, mas algo mais profundo: o velho ódio ao feminino. Um ódio particularmente dirigido à mulher que se defende — e mais ainda àquela que se levanta para defender outras mulheres.


​Se a deputada conseguir superar essa barreira — a expectativa de que mulheres devam permanecer dóceis, saciadas e conformadas mesmo quando são atacadas — já terá feito muito para avançar os direitos de todas.



​*Ana Paula Arendt é cientista política, poeta e diplomata. As suas opiniões pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.

 
 
 

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