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PROCURO UM HOMEM






PROCURO UM HOMEM


Por Ana Paula Arendt*

Procuro um homem; mas não sou Diógenes. Procuro um homem que tenha alcançado a compreensão do que seja uma mulher, do que seja uma força primitiva da natureza. Procuro um homem bem alto, em seu espírito; bastante charmoso, em sua postura. Bem-resolvido nos seus afazeres por vir e no que já tenha feito: um homem independente de sua mãe e que não leve tão a sério a opinião dos seus amigos. Procuro um homem que goste de exercícios ao ar livre, do mar, das cordas do violão, do voo dos pássaros… Um homem que, ao invés de se precipitar para me demonstrar sua precedência, se senta ao meu lado para deixar nossos espíritos comungar e nossa conversa fluir. Um homem de boa família, que queira aportar coisas belas à história de sua família, do mundo, dos povos… Um homem que não se considere completo, que abraçe em seu futuro a importância de outros homens e mulheres. Eu procuro um homem que conheça a história de seu pai, do pai de seu pai, do pai de seu avô, por muitas gerações: um homem que administra a própria dor para guardar os tesouros de sua família e de seu País… Eu procuro um homem que queira dominar o mundo e que, por essa razão, já o tenha conseguido: o homem que contempla os campos largos como se já possuísse a terra que Deus legou a todos os homens… Eu procuro um homem primitivo em seus instintos, que saiba não haver nele todas as respostas das quais ele precisa: que creia em Deus, que vele a memória dos antigos, que necessite de uma mulher, quando a noite chega, para olhá-lo e explicar a sua vida. Procuro um homem que tenha insistido em que eu o ame durante os meus sonhos… Um homem que reconheça a loucura de um atavismo para fazer um desvio bem distante de toda violência contra si mesmo, contra a sua humanidade, contra todas as mulheres… Um homem que jamais aplauda a covardia de quem as insulta. Eu não busco um sujeito infeliz que defenda os bons costumes: eu procuro um homem que tenha bons costumes. Não busco um sujeito encrenqueiro que defenda por aí a própria liberdade: eu procuro um homem ordeiro, que defenda antes a minha liberdade... Eu procuro um homem que jamais me morda, que jamais poderia me machucar e que, mesmo assim, queira curar minhas feridas. Procuro um homem que cuida de si mesmo, que se arruma, mas não em excesso; que se deixa também sob os meus cuidados. Aquele que conhece a importância indispensável de uma boa higiene mental, do cuidado com o corpo: um homem que teve mãe… Que gosta das coisas arrumadas ao seu redor, sem fazer da ordem um escravagismo, ou da regra uma obsessão. Procuro um homem humanista cansado de ouvir ideias que não têm razão de ser, um humanista que precisa de livros e de alguém que os leia por cima de seus ombros. Um homem que me escreva cartas de amor, contando que sente minha falta e que se lembrou de mim. Um homem que tenha algum temor da vida, de cometer erros duros demais; porque já descobriu existir erros imperdoáveis. Eu busco um homem que saiba relevar minhas falhas de ortografia e que fique feliz com os meus pequenos progressos. Busco um homem que compreenda seu papel de provedor em uma família, que não tenha medo de tornar suas coisas as prerrogativas de uma mulher, um homem que aprendeu o desprendimento de uma acumulação insensata. Eu procuro um homem que me queira como sua colega para passear pelo jardim, para se lembrar de um dia em que era menino entre as árvores e arbustos; que alcança os meus olhos como se eu fosse a sua pequena colega no belo arvoredo de sua juventude, que encontra o momento de me beijar… Eu procuro um homem que queira um casebre vizinho de um rio que jamais enche todo o mar, que ama os cavalos e os cães dóceis, que acha uma plantação de cenouras uma ideia magnífica. Um homem que reconheça entre as minhas frases os aforismas de amigos que recolhi de tanto caminhar. Um homem que queira ver os mesmos bons filmes de sempre comigo, que tenha uma vida interior na qual eu seja habitante, que repete as falas dos personagens antes que eles falem na tela. Eu procuro um homem que cante pela manhã, um homem que me desperte docemente com beijinhos, que me abraça pedindo eu vá cozinhar para ele, porque gosta mais do meu jeito de fazer as coisas que do jeito dele. Eu procuro um homem de boa-fé, mesmo quando todos os outros homens tenham lhe dado razões suficientes para não ter nenhuma: um homem, portanto, que se tenha tornado o orgulho de sua própria espécie. Um homem que se esqueça de outras mulheres e que as deixe para outros homens, os seus irmãos: que queira ser Carlos Magno, e não um mouro! E mesmo os mouros pedem antes consentimento aos seus primeiros amores, pois não existe amor fora da verdade; e fora do amor não existe o homem… Um homem que seja católico, ou não; que possa se tornar católico, pois por um verdadeiro amor vale a pena vencer todas as fraquezas, adquirir todas as virtudes… Um homem que não guarde, antes de um raciocínio, onde a sua conclusão vai terminar: que saiba conhecer. Um homem que me pergunte quantos filhos Deus irá nos confiar… Portanto. Procuro um homem de espírito muito alto e bem charmoso, humanista e cansado, portador de alguma fé indissolúvel em Deus e em si mesmo; que se deu conta, de repente, como se tivesse sido atravessado por um raio originado no céu mais vasto, que é ele o amor de toda a minha vida. É ele o homem que eu ainda não encontrei. Um homem que, finalmente, diante destas palavras perdidas de uma mulher que o ama, de súbito percebe que ela o tem procurado pelo mundo inteiro, em todas as línguas que ela aprendeu, em todos os lugares que ela visitou… Sim, eu procuro um homem que, depois de se atormentar em uma discussão, vai embora, sai de casa, para perceber, depois de alguns passos, o abismo. Ele me ama, também: então é verdade até o fim dos tempos. Eu procuro um homem que não consiga partir nem viver longe de mim, um homem que faça o retorno diante do abismo e me reencontre derramando imensas lágrimas. Que saiba então perdoar, que me faça prometer, assim como ele promete, que apenas iremos falar de coisas boas; que vamos deixar de lado todas as bobagens e egoísmos. Nosso amor de ser um só nasceu antes de Aristófanes… Procuro um homem que se esqueceu de meus pecados e que compreende os momentos de distância, de silêncio, de proximidade… Que toma todos os meus erros para si, porque ele descobriu a paz do caminho maior, o princípio de um amor infinito. Eu procuro um homem que compreenda podemos olhar o mundo desde outros pontos de vista; e ainda assim encontrar o amor, por meio de um mistério inexplicável e simples. É você que me lê, o homem que eu tenho procurado, durante toda minha vida? É você, o arquiteto com mãos de me fazer uma construção jamais terminada? Quando me dirá que você é esse homem? Meus companheiros de vida riem. Eles acham impossível que eu encontre, aqui na face da Terra, um homem assim, como eu busco, que me faça tão completa… É quando então me vêm os anos de um grande sofrimento, de uma solidão triste, em que tenho vivido, que eu me surpreendo eles julguem algo assim impossível. Sim, esse homem existe! Porque a sua existência se provou possível. Durante estes anos intermináveis, eu, eu mesma, me tornei esse homem confiável que eu tanto procurava.

* Ana Paula Arendt é cientista política, poeta e diplomata brasileira.