Uma travessia solitária

Uma travessia solitária
Ana Paula Arendt
Subi a bordo de uma bela barca.
O destino dizia algo instigante:
Amor verdadeiro.
No início, o sentimento presente,
estar de um modo recorrente e
também o apego surgindo na atenção.
Depois o movimento da mente,
Estável, brotando os ramos da glicínia.
Veio o infinito do mar, pélago
E já não se via mais a terra.
Apenas o horizonte interminável
e a vontade de alcançá-lo.
Este amor que não possui essência fixa,
embora seja vivido como real.
Depois, o céu estrelado marcando caminhos.
O mapa que nos localiza.
Este amor que pode ser cuidado
sem que eu me perca nele.
Os seres marinhos e os peixes na profundidade
Embarcações cruzando a extensão ao longe
Os trajetos que atravessam o meu mapa…
Este amor é percebido, eu o carrego comigo
mas eu não sou apenas isso.
Existe este amor, eu o tenho e ofereço.
Céu, terra e mar limpam, com delicadeza:
a rarefação de fixidez: é assim
a salsugem de posse: meu
a stasis de totalidade: isso é tudo.
Tudo o que nos faz ir longe demais na contenção…
O amor
observado demais
controlado demais
quase esterilizado.
Chega o alto mar.
A barca sem bordas, sem bondade, entre a superfície a a atmosfera,
Sem alavancas de afeto para levantar, sem chão de terra para se erguer.
Como se o horizonte de amar fosse algo a ser administrado, não vivido.
Vêm de novo o albatroz, o rochedo, as salsas águas
Resgatam o movimento da nave,
Limpam as redes com que os homens capturam
Trocam as amarras com que o nau se desgasta
Ligam o encontro entre o desconhecido e os limites do que se julga conhecer…
Um novo dia amarra o espanto sem registro.
Enfim, depois de muito mar, terra à vista:
o amor que não pede autorização da lucidez
o amor que não se deixa reduzir a técnica
o amor que excede o sujeito
o amor que é, de fato, uma verdade difícil.
Chega o destino.
Pisar a terra de novo
sem evitar o sofrimento.
Sem saber sustentar o excesso.
E o amor verdadeiro
tem sempre um pouco de excesso.
Ana Paula Arendt, The Golden Book of Faith.



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