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Uma travessia solitária

há 8 horas
2 min de leitura

Uma travessia solitária

Ana Paula Arendt


Subi a bordo de uma bela barca.

O destino dizia algo instigante:

Amor verdadeiro.


No início, o sentimento presente,

estar de um modo recorrente e

também o apego surgindo na atenção.

Depois o movimento da mente,

Estável, brotando os ramos da glicínia.


Veio o infinito do mar, pélago

E já não se via mais a terra.

Apenas o horizonte interminável

e a vontade de alcançá-lo.

Este amor que não possui essência fixa,

embora seja vivido como real.


Depois, o céu estrelado marcando caminhos.

O mapa que nos localiza.

Este amor que pode ser cuidado

sem que eu me perca nele.


Os seres marinhos e os peixes na profundidade

Embarcações cruzando a extensão ao longe

Os trajetos que atravessam o meu mapa…

Este amor é percebido, eu o carrego comigo

mas eu não sou apenas isso.


Existe este amor, eu o tenho e ofereço.


Céu, terra e mar limpam, com delicadeza:

a rarefação de fixidez: é assim

a salsugem de posse: meu

a stasis de totalidade: isso é tudo.


Tudo o que nos faz ir longe demais na contenção…

O amor

observado demais

controlado demais

quase esterilizado.


Chega o alto mar.

A barca sem bordas, sem bondade, entre a superfície a a atmosfera,

Sem alavancas de afeto para levantar, sem chão de terra para se erguer.

Como se o horizonte de amar fosse algo a ser administrado, não vivido.


Vêm de novo o albatroz, o rochedo, as salsas águas

Resgatam o movimento da nave,

Limpam as redes com que os homens capturam

Trocam as amarras com que o nau se desgasta

Ligam o encontro entre o desconhecido e os limites do que se julga conhecer…

Um novo dia amarra o espanto sem registro.


Enfim, depois de muito mar, terra à vista:

o amor que não pede autorização da lucidez

o amor que não se deixa reduzir a técnica

o amor que excede o sujeito

o amor que é, de fato, uma verdade difícil.


Chega o destino.

Pisar a terra de novo

sem evitar o sofrimento.

Sem saber sustentar o excesso.

E o amor verdadeiro

tem sempre um pouco de excesso.


Ana Paula Arendt, The Golden Book of Faith.

 
 
 

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