O ego coletivo e o homem
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O ego coletivo e o homem
É muito atrativo
despertar a multidão
com definições do que é mulher.
– isso desde os tempos antigos.
Conclamando à praça pública...
Primeiro, o sujeito autoritário
é pretensioso:
se acha no direito
de definir o que é o outro
para exclui-lo de seus direitos.
Ganha a pretensão de
definir o que nenhum homem
jamais ousou definir:
o que é uma mulher…
Redução de um ser complexo
que tantos poetas cantaram,
jamais satisfeitos com seus versos,
à brutalidade falsa
de uma simplificação.
A mulher...
A mulher é o homem em expansão.
E então pulsa o ódio na veia
do sujeito autoritário
que range os dentes…
E acende fogueiras
para chamar de verdade
o ato de destruir que lhe faz gozar.
Depois, o seu fango autoritário
clama o ego coletivo:
ego que se alimenta, insaciável
dos direitos e da dignidade
dos mais vulneráveis,
para se dizer forte.
Então precisa se dizer forte
porque ignora o que é força.
Precisa combater a ideia de que
as vítimas possam ter força,
força para se defender.
A agressão aglomera
os grandes públicos em alarido
como fogo que chama
os olhos e a fúria,
– ochlos
nesses espetáculos pavorosos
de covardia e soberba.
Por fim,
é lucrativo o engodo:
fama, favores, votos.
O referenciamento
O referendamento
entre iguais
gera escala,
benefícios eleitorais,
audiência.
O ego coletivo
não se desprende de si mesmo
nem da sua pretensão.
Não sabe acolher,
nem ser generoso;
não sabe deixar passar.
Não sabe a paz;
não sabe deixar viver em paz.
Não sabe ir embora viver.
Não sabe silenciar.
Mas um homem
–quando é Homem–
sempre será um homem:
ser que protege
e dispersa os bandos
cheios de ódio.
Não se aquece no incêndio do ódio,
mas guarda o fogo que lhe cria.
Ser que vive à parte
do ego coletivo
e se criou no mato,
na trilha, na luminária da noite, no mar.
Ser que aprende, em silêncio, a acender
o fogo que não devora,
mas sustenta.
Ser que sabe de si mesmo
e se nutre do deserto de si mesmo.
Homem,
ser para quem os poetas encontram
o que ele deseja de si mesmo.
Ser homem:
num tempo em que
todos alimentam o próprio ego
e o ego coletivo,
ego ínfero, insaciável
em se refestelar dos
direitos subtraídos,
alguém que não precisa
disputar o espaço
das minorias vulneráveis–
mas que precisa criar novos espaços.
Ser homem…!
Reverter essa
máquina de moer o futuro em passado,
incendiando o tempo,
em que pedra após pedra
vai-se derrubando
o voto, a voz, a liberdade, a vida
para depois ver o campo de destruição,
um estertor,
para depois atirar-se à prisão, ao precipício.
O ser que se divorcia da vilificação.
Mas: ser homem,
capaz de se entender
e de se portar dignamente
como homem
e como homem em expansão,
capaz de encontrar e viver da paixão
alimentada por sua própria vida,
ser que despreza acumular
vitórias para esse
ego coletivo inócuo
de predadorismo social
que leva as sociedades
à tragédia, ao desastre.
Ser que se importa com aqueles
aos quais pertence.
Não se diz forte:
precisa sobreviver às falhas que lhe habitam
e para isso precisa dar coisas de sua vida a todos:
aos amigos e aos adversários.
Viver a paixão da vida,
amar a própria espécie,
saber do próprio erro,
trilhar o próprio caminho
com coragem e bravura…
Defender os bastiões
do que torna um homem si mesmo,
caminhar rumo ao horizonte infinito
de um ideal que não foi pensado.
Homem, um ideal que precisa ser pensado.
Explorador, viajante, construtor, meu abrigo…
Feito de buscar algo bom para si e os outros.
Falta nas pessoas
a paixão ardente e constante
que eu encontro dentro de ti.
A paixão
que eu vejo mover os teus passos
de ser um homem
feito de construir e salvar a civilização.
Eu te amo tanto,
Homem –
que preciso te amar
com ainda mais paixão
Como quem protege a tua chama
do vento do mundo.
Ana Paula Arendt. "The Pink Book of Passion".



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