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O ego coletivo e o homem

  • há 13 horas
  • 3 min de leitura


O ego coletivo e o homem



É muito atrativo

despertar a multidão

com definições do que é mulher.

– isso desde os tempos antigos.

Conclamando à praça pública...


Primeiro, o sujeito autoritário

é pretensioso:

se acha no direito

de definir o que é o outro

para exclui-lo de seus direitos.


Ganha a pretensão de

definir o que nenhum homem

jamais ousou definir:

o que é uma mulher…


Redução de um ser complexo

que tantos poetas cantaram,

jamais satisfeitos com seus versos,

à brutalidade falsa

de uma simplificação.


A mulher...

A mulher é o homem em expansão.

E então pulsa o ódio na veia

do sujeito autoritário

que range os dentes…

E acende fogueiras

para chamar de verdade

o ato de destruir que lhe faz gozar.


Depois, o seu fango autoritário

clama o ego coletivo:

ego que se alimenta, insaciável

dos direitos e da dignidade

dos mais vulneráveis,

para se dizer forte.


Então precisa se dizer forte

porque ignora o que é força.

Precisa combater a ideia de que

as vítimas possam ter força,

força para se defender.



A agressão aglomera

os grandes públicos em alarido

como fogo que chama

os olhos e a fúria,

ochlos

nesses espetáculos pavorosos

de covardia e soberba.


Por fim,

é lucrativo o engodo:

fama, favores, votos.

O referenciamento

O referendamento

entre iguais

gera escala,

benefícios eleitorais,

audiência.


O ego coletivo

não se desprende de si mesmo

nem da sua pretensão.

Não sabe acolher,

nem ser generoso;

não sabe deixar passar.

Não sabe a paz;

não sabe deixar viver em paz.

Não sabe ir embora viver.

Não sabe silenciar.


Mas um homem

–quando é Homem–

sempre será um homem:

ser que protege

e dispersa os bandos

cheios de ódio.

Não se aquece no incêndio do ódio,

mas guarda o fogo que lhe cria.


Ser que vive à parte

do ego coletivo

e se criou no mato,

na trilha, na luminária da noite, no mar.

Ser que aprende, em silêncio, a acender

o fogo que não devora,

mas sustenta.

Ser que sabe de si mesmo

e se nutre do deserto de si mesmo.

Homem,

ser para quem os poetas encontram

o que ele deseja de si mesmo.


Ser homem:

num tempo em que

todos alimentam o próprio ego

e o ego coletivo,

ego ínfero, insaciável

em se refestelar dos

direitos subtraídos,

alguém que não precisa

disputar o espaço

das minorias vulneráveis–

mas que precisa criar novos espaços.


Ser homem…!

Reverter essa

máquina de moer o futuro em passado,

incendiando o tempo,

em que pedra após pedra

vai-se derrubando

o voto, a voz, a liberdade, a vida

para depois ver o campo de destruição,

um estertor,

para depois atirar-se à prisão, ao precipício.

O ser que se divorcia da vilificação.


Mas: ser homem,

capaz de se entender

e de se portar dignamente

como homem

e como homem em expansão,

capaz de encontrar e viver da paixão

alimentada por sua própria vida,

ser que despreza acumular

vitórias para esse

ego coletivo inócuo

de predadorismo social

que leva as sociedades

à tragédia, ao desastre.

Ser que se importa com aqueles

aos quais pertence.

Não se diz forte:

precisa sobreviver às falhas que lhe habitam

e para isso precisa dar coisas de sua vida a todos:

aos amigos e aos adversários.


Viver a paixão da vida,

amar a própria espécie,

saber do próprio erro,

trilhar o próprio caminho

com coragem e bravura…


Defender os bastiões

do que torna um homem si mesmo,

caminhar rumo ao horizonte infinito

de um ideal que não foi pensado.

Homem, um ideal que precisa ser pensado.

Explorador, viajante, construtor, meu abrigo…

Feito de buscar algo bom para si e os outros.


Falta nas pessoas

a paixão ardente e constante

que eu encontro dentro de ti.

A paixão

que eu vejo mover os teus passos

de ser um homem

feito de construir e salvar a civilização.    


Eu te amo tanto,

Homem –

que preciso te amar

com ainda mais paixão

Como quem protege a tua chama

do vento do mundo.


Ana Paula Arendt. "The Pink Book of Passion".

 
 
 

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