entre cárceres e bosques, uma pérola
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Margarida Patriota é escritora, tradutora e crítica literária brasileira. Membro da Academia Brasiliense de Letras, viveu em diversos países durante a infância e juventude, experiência que marcou o caráter cosmopolita de sua obra. Atuou também na difusão cultural e apresenta, desde há muitos anos, o programa Autores e Livros, da Rádio Senado. Mestre e doutora em Literatura Francesa, lecionou por 28 anos Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Francesa no Departamento de Letras da Universidade de Brasília (UnB). Sua obra transita entre crítica literária, ensaio, ficção e tradução, com forte presença de referências eruditas, reflexão psicológica e observação social. Seu romance Cárcere privado foi finalista do Prêmio Oceanos e sua prosa costuma combinar sofisticação intelectual, ironia e investigação da subjetividade contemporânea. Seu perfil de tradutora acompanha sua escrita: sofisticado, erudito e muito atento à linguagem, tendo trazido clássicos de Gaston Leroux, Henry James e Charles Baudelaire à língua portuguesa. Sua obra traduzida mais recente, “As flores do mal”, de Baudelaire, foi publicda pela Editora 7Letras. A poesia de Margarida Patriota é introspectiva, elegante e bastante intelectualizada, marcada por temas como memória, solidão, tempo e identidade. Seus poemas unem reflexão, ironia e referências culturais, com linguagem elaborada e forte dimensão psicológica.
Arendt. D. Margarida, obrigada pelo privilégio de ter concedido esta entrevista aos meus leitores. Que tal começarmos com o seu nome? Sua mãe ou seu pai gostavam de margaridas?
Margarida. Minha mãe escolheu meu nome em função de um livro lido na meninice: As meninas exemplares de autoria da escritora francesa Condessa de Ségur. Uma das exemplares se chamava Margarida (a que dava mal exemplo chamava-se Sofia). Margarida em latim significa pérola, e, em inglês, por exemplo, Margaret não remete a flor.
Arendt. Pertencente a uma família de diplomatas, de certa maneira, quando criança, teve de fazer representação, mesmo quando preferisse escapar disso, correto? Chegou a trabalhar no serviço exterior depois disso? A diplomacia na sua vida ajudou na sua inspiração, a escrever, ou a vocação da escrita veio antes?
Margarida. Nunca trabalhei no serviço exterior. Em criança, demonstrei talento para o desenho. A família imaginava que eu seria artista plástica. Mas por volta dos meus 15 anos a literatura falou mais alto para mim do que a pintura.
Arendt. Conte-me, como grande escritora de vastos domínios, sobre o risco de reduzir a obra literária a um autobiografismo literal. Convém falar de espinhos? Ou talvez nunca? Pois defendia o T. S. Eliot que “Poetry is not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not the expression of personality, but an escape from personality.” (“Tradition and the Individual Talent”, 1919). (“A poesia não é um extravasamento da emoção, mas uma fuga da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade.”). Por que os poetas e escritores precisam, então, escrever sobre a própria experiência?
Margarida. Acredito que tanto a fuga da própria experiência quanto a própria experiência possam ser transformados em literatura de qualidade. Flaubert, ao fugir de si para escrever Madame Bovary, acabou dizendo “Madame Bovary sou eu.” Montaigne falou de si no Ensaios, com base na premissa de que cada pessoa traz nela a forma inteira de condição humana.
Arendt. Por outro lado, a Rachel Cusk sugere que a escrita é uma forma de fazer com que as coisas que não podem ser ditas diretamente façam algum sentido de algum modo. (Rachel Cusk, The Art of Fiction No. 246, <https://www.theparisreview.org/interviews/7535/the-art-of-fiction-no-246-rachel-cusk?utm_source=chatgpt.com>). A literatura aborda o real por meio do sintético? Ou a terrível dor de ser, na literatura, também se torna inautêntica?
Margarida. Uma emoção autêntica não garante um bom texto. Um bom texto, para mim, exige distanciamento crítico da parte de quem o elabora. Lembro a imagem do poeta fingidor de Fernando Pessoa, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente. A poesia se alimenta da dor de quem a expressa, mas para gerar empatia em outras pessoas, precisa ser trabalhada como se fosse a dor destas.

Arendt. Eu recordo a esse propósito a Ingeborg Bachmann, também, a qual propõe que o escritor tenha uma postura hermética.
“Fala-se hoje em congressos, entrevistas e em todas as ocasiões possíveis que calham aos escritores e poetas. Os seus posicionamentos são absolutamente falsos. Cada um tem a obrigação de se perguntar até que ponto pode justificar o seu trabalho e, antes de mais, se o pode justificar perante si próprio. E isso, para mim, limita-se a duas ou três exigências: aquilo a que outrora se chamou honestidade intelectual. Não é preciso carregar-se de pseudoproblemas que se adotam superficialmente. Os problemas verdadeiros assumem-se de um modo completamente diferente. Não podem ser discutidos em reportagens, conferências ou congressos. E quando existe um problema verdadeiro, ele é indiscutível no melhor sentido. E a única resposta para ele é o trabalho, a obra, ou a realização dessa obra” (Ingeborg Bachmann. Literatura como Utopia (Frankfurter Vorlesungen: Probleme zeitgenössischer Dichtung). Tradução de João Barrento. Lisboa: Relógio d’Água, 1993).
“A única resposta legítima a um problema é o trabalho, a obra, ou a realização dessa obra”. Concorda com isso? A literatura é um santuário para lidar para encontrar a solução que nos redime de um terreno espinhoso em nossas vidas?
Margarida. Não sei se a Literatura resolve problemas. Acho que as grandes obras literárias promovem um encontro de almas, de sensibilidades e de intelectos que gratifica a existência de quem escreve e de que lê.
Arendt. Conhece a obra poética da Embaixadora Dora Alencar Vasconcellos? O que acha dela? Eu confesso que tenho medo de abrir os livros dela, pela tragédia que lhe abateu, embora algum dia eu tenha de fazer isso. Ouvi dizer que ela nunca mais escreveu depois da tragédia. Mas qual sua opinião? Se identifica com o ambiente da escrita dela?
Margarida. Eu me lembro dos meus pais falando dessa embaixadora, até porque eles moraram em Trinidad e Tobago, onde ela morou e faleceu. Sei que Villa Lobos musicou um poema dela, e é só.
Arendt. Quais foram as décadas que mais lhe encantaram, até o momento? (Em qualquer período da história). E qual a diferença, a seu ver, dessas décadas que lhe encantam, com estes anos recentes que vivemos?
Margarida. Os períodos áureos de inúmeras civilizações me encantam. Como não fui formada na era digital, eu me ressinto de certo caráter invasivo das redes sociais e da dependência em que a humanidade se colocou com relação aos celulares que ela própria inventou.

Arendt. Gosta de árvores? Por quê? Qual sua árvore favorita? E de bosque, gosta de bosque? Quais bosques já visitou, e qual seu bosque favorito?
Margarida. Gosto das árvores de vários biomas. Os bosques da Mata Atlântica me tocam de maneira especial, os de Itatiaia, por exemplo. No caminho para Petrópolis, não me canso de admirar as embaúbas prateadas em contraste com a mata verde. Gosto das quaresmeiras, das acácias, das araucárias, dos salgueiros chorões, e muitas outras.
Arendt. Qual(is) seu(s) livro(s) favorito(s) e passagens favoritas? Por quê?
Margarida. Admiro e aprecio um número sem conta de obras literárias. O apreço às vezes está vinculado a uma situação existencial minha que ficou para trás, a uma idade, e, em alguns casos, não sei se resistiria ao tempo. Entre os livros que releio com um prazer que não se extingue, estão As flores do Mal de Baudelaire, Washington Square, de Henry James, O vermelho e o Negro, de Stendhal, Querra e paz de Tolstoi, Combray de Proust. Memórias póstumas de Brás Cubas talvez seja o livro que mais reli. O prólogo e o capítulo “óbito do autor” sempre me impressionam pela beleza do estilo. Como em: Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia. Ou em: Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro.
Arendt. O que não gosta na literatura brasileira, em relação à literatura universal? E o que mais gosta?
Margarida. Pergunta difícil. Supõe generalizações complicadas. Não gosto muito de narrativas constituídas de monólogos em que autores cultos transcrevem de ponta a ponta linguagem oral regional e inculta, tipo:” Como tá tu, tu tá bem?” durante duzentas páginas.
Arendt. AAAH HAHAHAHAHAHA AAAHAHAHAHAHAHAHA…
AHHHH….HAHAHAHA.
Perigoso dizer isso por aí. Ahahahahaha….
Ok… Quais são os seus rituais de beleza? (As escritoras e leitoras querem saber como você chegou a esse excelente resultado).
Margarida. Procuro ter uma alimentação saudável, embora meu fraco sejam os doces. Faço hidroginástica com regularidade, uso protetor solar e nunca fumei.
Arendt. A ministra Ellen Gracie também fazia hidroginástica! Quem sabe algum dia eu me anime, realmente parece dar resultados excelentes. Sobre o seu romance Cárcere Privado. Vou tentar fazer perguntas sem dar spoilers. Aos leitores, partilho a sinopse: Cárcere privado acompanha uma narradora sem nome que mantém Mara Dália — amiga, rival e espécie de alter ego afetivo — amarrada dentro de um escritório em seu apartamento de Brasília. A história começa já no meio da ação: a narradora acaba de imobilizar Dália com fita adesiva, enquanto o companheiro, Jonas, viaja para resolver questões familiares fora da cidade. No seu apartamento, ela assume o papel de carcereira e passa a vigiar a prisioneira ao longo de uma noite tensa. A partir daí, o romance se desenvolve menos como thriller policial e mais como mergulho psicológico, alternando diversos eventos prosaicos com reflexão filosófica. Por vezes o livro recorda a interioridade obsessiva de Clarice Lispector e, em outros momentos, Crime e Castigo, pela racionalização moral do delito; em outros, recorda a narrativa de Brás Cubas, pelos espirais, apartes e digressões cheias de verve. Gostaria de assinalar os momentos em que se se destaca deles: o modo como o texto alterna banalidade cotidiana (engarrafamento, condomínio, porteiro, padaria, elevador) com violência extrema; a ironia culta da narradora, cheia de referências literárias e históricas, mas usada para justificar atos cada vez mais perturbadores… Isso de certo modo destila algo entranhado na identidade do Brasil, no ato heróico da sobrevivência, meio ao que lemos nas notícias de jornal? Ou reflete a sua experiência pessoal de um cenário violento vivido por si e outras pessoas?
“Foi, afinal, para não criar desconfianças que evitei ir, da garagem, direto para o quinto andar. Não avaliava o penoso que seria fingir que empurro a rotina com a barriga, quando atravesso o pico dramático da existência. Sinto-me falsa até a medula, afetando ares de normalidade para o Marcos, um quase amigo, que não merece fingimento de ninguém. “O remédio que ministro periga ser pior que a doença”, advirto-me, embora convencida de que terminar o que comecei pede manter as aparências.” (Cárcere Privado, de Margarida Patriota, p. 9).
Margarida. A ideia foi ambientar em Brasília uma ficção meio à la Patricia Highsmith, do ponto de vista de quem comete um crime factual de sequestro e fundi-lo com uma alegoria psíquica, do eu, querendo aprisionar o monstro que tem em si.
Arendt. Enquanto a narradora em seu livro cuida da refém, fuma, conversa com vizinhos, sai para comprar doces e tenta preservar a aparência de normalidade, a narradora rememora os acontecimentos que a levaram ao colapso: sua saída traumática do serviço público; o ressentimento acumulado; a dependência emocional em relação a Jonas; o sentimento de fracasso; e, sobretudo, a relação ambígua e corrosiva com Mara Dália. Neste momento, recordo a construção quase teatral dos vizinhos — Vinhadalhos, o vizinho erudito, Moca, o comerciante coreano, Marcos, o porteiro, Lontra, o agente da Abin — como se o prédio inteiro fosse um microcosmo moral, orbitando a protagonista, ampliando sua paranoia e sua sensação de estar permanentemente observada. Achei essa construção particularmente interessante, pois a personagem não só encarcera seu alter, mas habita um microcosmo circunscrito. Esse microcosmo se torna uma extensão da esfera privativa da protagonista, a seu ver? Ou permanece algo externo a ela?
Margarida. A narradora encarcera uma mulher que vive no mesmo microcosmo dela e no final das contas talvez seja parte dela, seu alterego, como você diz.
Arendt. Minha parte favorita do livro é a consciência da autora emergindo ao redor da página 60, quando a fronteira entre ficção e realidade parece se diluir rapidamente.
“Vamos a um Olimpo de deuses dogmáticos”, confidenciei-lhe, no que adentramos o anfiteatro descomunal para o público previsto. “O terreno aqui é minado”, avisei-lhe. “Um passo em falso, a mina explode e te estraçalha. Conheço o ideário da fauna. Vim, sobretudo, prestigiar o organizador boa-praça que me arranja traduções e insistiu que eu viesse. Ou seja: guarde para você suas opiniões destoantes.” Na sequência do aviso, Dália e eu nos sentamos no meio da segunda fileira da arquibancada, frente à mesa retangular no palco. (…) A civilização ocidental empacara num nó górdio a partir do qual só uma reconstrução a partir do zero a salvaria. “Tenho minhas dúvidas...”, resmungou Dália em meu ouvido, “reconstruir algo implica construí-lo de novo, nos moldes que o algo tinha antes de ser destruído... Não se reconstrói do zero, constrói-se... Além disso”, ponderou, “destrói-se o pensamento ocidental, e o oriental continua fagueiro?”, ironizou, enquanto o palestrante postulava: “Precisamos reimplantar o grau zero do texto, porque o intertexto ocidental perpetua a injustiça e o preconceito”. Inclinei-me a concordar com os males citados, sem, no entanto, vislumbrar garantia de que o intertexto reduzido a zero perpetuasse maravilhas. (op. cit., p. 60-1).
Como você avalia a reflexão da narradora sobre esse debate que o palestrante tenta fazer substantivo? O que é esse palestrante?
Margarida. Na cena da palestra universitária há uma paródia de certo discurso intelectualoide moderno, que remete a títulos como o Grau zero da escrita, do Roland Barthes e de jargões da contracultura, do estruturalismo, do formalismo russo e outras correntes ditas experimentais e de vanguarda do século XX para cá.

Arendt. “Guarde para você opiniões destoantes”. A seu ver, esse terreno minado está presente na realidade da nossa democracia? Qual o papel da literatura numa democracia que se apresenta já bem acabada, que não aceita ser questionada, mesmo nos seus procedimentos?
Margarida. Vejo a arte literária como um espaço para se respirar fora de patrulhamentos ideológicos, um espaço de liberdade em que um personagem pode acreditar que na realidade dos grupos sociais, dos partidos políticos, das corporações, uma opinião destoante pode deixar quem opina em maus lençóis.
Arendt. A erudição e eloquência é uma marca desse livro.
“Nesse lance percebo que divago, se não estou a colher rebarbas de sono REM. Para me repor no colo dos fatos, calco o gordo das palmas nas cavidades oculares, confiando em que a cegueira de um átimo me trará clareza depois. Pestanejar com vagar, e pela franja dos cílios deparar com Mara Dália a centímetros de mim, babando por uma fenda na mordaça, era o que eu menos esperava.
— Uh...! — recaio na almofada, como se evitasse um coice.
Medonha a babar, Dália me compele a virar o rosto e afundá-lo no encosto do sofá, num medo súbito de que detenha poderes de górgona e me transforme em pedra, se eu me atrever a encará-la. Enquanto me alieno em esquivança de avestruz, algo pontudo me fisga a espinha, doendo num grau que me induz a arqueá-la e empinar a nuca, despregando o rosto do encosto. Com um olhar de esguelha busco o objeto que me fisgou. À primeira vista, nada distingo de inabitual por perto.” (op. cit., p. 84)
Margarida, você também é contra o achatamento contemporâneo da linguagem? Se sim: por que estamos na contramão?
Margarida. O achatamento contemporâneo da linguagem, quando excessivo, me desagrada. Gosto de um Português claro, preciso, escorreito, ainda que rico em sua variedade idiomática, e esteticamente redondo, digamos, apto a traduzir realidades complexas. Isso vai na contramão de um momento que privilegia tanto o chamado “lugar de fala”, qualquer que seja, quanto um minimalismo que às vezes denota falta de recursos de expressão.
Arendt. A Dama Andante (p. 101) é a famosa Sra. Joana, mulher sem-teto de longos cabelos brancos e saias longas, que habita as diversas entrequadras de Brasília, carregando sacolas de livros, certo? O que você quis construir ou desconstruir com a abordagem da narradora, ao ver aquela mulher?
Margarida. Quis falar de uma pessoa real, que me impressiona no dia-a-dia, no microcosmo da região em que moro, e que se relaciona com o tema do livro, uma vez que a julgo enclausurada num tipo de alienação.
Arendt. Neste trecho, parece interessante como a narradora calcula o dano que Mara Dália provoca a ela com base no que diz o marido; e a dissonância do entendimento entre a narradora e Jonas, para um amor reduzido ao ato carnal, para a outra, o amor compreendido como algo fraterno; permanente o foco no hiato, para chegar ao desentendimento. Existe algo de universal nesse episódio de crise conjugal que o seu livro captou de maneira fluida.
“Jonas, dedo indicador em riste, a modo de aluno pedindo palavra em sala de aula: “Sou um próximo que você ama, salvo engano...”. “Sem dúvida”, asseverei. Mas eu aspirava a amar um número maior de próximos e próximas, fora do círculo familiar. “Em suma, sonha em ser promíscua”, resumiu. “Que promíscua, Jonas?! Estou falando de amor fraterno! É tão difícil acompanhar?”. Dália estorvava meus passos na cidade que eu habitava. Apoderava-se da minha voz, pondo-me em pé de guerra com o mundo. “Livre-se dela”, Jonas pontificou contundente como raras vezes o vira ao longo de nossas magras epopeias. Com Dália a tiracolo, meus périplos não se alargariam; não se alargariam as minhas fronteiras. Urgia mudar o script que me pautava”. (p. 121-122).
Entretanto, a narradora recusa entrar no mérito do problema envolvendo o marido: Mara Dália, como se fosse a encarnação dos acidentes da sequestradora, parece ser o problema. Uma mulher da qual ela se distancia como o bode expiatório de si mesma. Como deveria ser um casamento?
Margarida. No casamento da narradora do livro Cárcere Privado o marido desta, sujeito prático e de aparência descomplicada, não atina com metade dos melindres íntimos da mulher (e talvez vice-versa). Esse desconhecimento das profundezas do parceiro existe nos melhores casamentos, e creio até que muita introspecção da parte de um chega a dificultar o relacionamento a dois.
Arendt. Sobre o mergulho psicológico na narrativa. A fragmentação psíquica da narradora, a dúvida se o cárcere é real, simbólico ou psicológico tornam essa obra muito complexa de ser analisada. E é verdade que não sou linguista, nem crítica literária apta a encontrar todas as sutilezas da estrutura complexa que você construiu: apenas poeta, estudante relapsa de psicanálise. De maneira que ao ler o seu livro permaneço boquiaberta, sem saber muito bem o que pensar, com uma sensação mista de universo forense e rito social mordaz. Em algum momento busco encontrar o macrocosmo da narradora em seu livro, para estabilizar a individualização, e pousar o pensamento na personagem. Onde estaria o macrocosmo dela? Ou o seu objetivo era mesmo esse, confiar na inteligência do leitor e a ele essa tarefa de elucidação?
Margarida. O livro usa um suposto enredo tradicional de suspense e supõe que o leitor, como você bem atinou, vá aos poucos se perguntando “que sequestro é esse?” O que é fato, o que é delírio? Na verdade, confio na boa vontade do leitor em ler o livro até a última página.
Arendt. Explico aos leitores minha impressão de que o seu livro parece discorrer mais sobre o sequestro físico, a prisão emocional e também o confinamento mental da narradora em suas obsessões, do que sobre o cárcere de uma rival, propriamente dito – embora eu não esteja muito certa disso, cabe ao próprio leitor averiguar. Algo que surge muito familiar e reconhecível em ambientes excessivamente insitucionalizados, se bem me pareceu um livro que pode ser lido de várias maneiras. Uma dúvida que não consegui responder, depois de ler o livro: Mara Dália é, na visão da narradora, a responsável pelos seus males e revezes. Mas depois de amarrar Mara Dália, os males e revezes não parecem ter sido resolvidos: parecem ter se agravado.
Então. O problema não foi tê-la justamente aprisionado, antes? Por que ela simplesmente não podia deixar Mara Dália viver solta por aí, deixar de lado o casamento instável, ir por aí pelos vastos prados criar livremente? Por que não deixar de dar bola para a crise profissional, abraçar o isolamento como os monges, e desfazer com isso os conflitos internos? Por que ela não corta o nó górdio com uma espada, deixa todo mundo de lado, limpa a sua clareira habitável de sanidade e estabelece a soberania de si mesma? Diante da complexidade e alto grau de exigência ensejando cobranças contraditórias (casamento, profissão, entrosamento social), por que ela não se torna uma mulher primitiva – ou pelo menos por que não pondera o retorno a uma mulher primitiva?
Margarida. A narradora recorre ao sequestro como uma tentativa maluca de erradicar um mal de que quer se livrar, mas pelo ato extremo que pratica provavelmente não terá êxito na empreitada, e continuará encarcerada.
Arendt. Eu não seria tão pessimista quanto ao futuro! O futuro a Deus pertence e Deus gosta de feitos inéditos… Nunca se sabe! Uma pessoa se torna mais cruel com os outros quando é capaz de ser cruel consigo mesma?
Margarida. Talvez haja uma relação entre o punir-se e punir os outros. Por outro lado, conheço pessoas que são boas com os outros e péssimas para com elas próprias.
Arendt. Onde as mulheres podem encontrar compassividade consigo mesmas? E qual a solução para a falta de compassividade dos homens com as mulheres?
Margarida. Recorro a Augusto dos Anjos: O homem, que, nesta terra miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera. Acho que educação em casa, instrução formal, informação, espiritualidade ajudam a coibir a fera que se abriga em nós.

Arendt. Seu livro me lembrou uma análise que tradicionalmente se faz dos contos de fada: Cinderela. Aos leitores recordo que certas correntes psicanalíticas, especialmente ligadas a autores como Bruno Bettelheim (A Psicanálise dos Contos de Fadas) e à tradição junguiana (Carl Gustav Jung, O Homem e seus Símbolos), interpretam Cinderela como uma espécie de cárcere privado da alma: guardiã das virtudes de obediência, pureza, esperança e sonho, ela permanece aprisionada pela madrasta, figura associada à ambição, à instrumentalização, luxo e poder, rivalidade e jogo das aparências. O conto expressaria, assim, uma história universal da condição humana, cativa de suas próprias obsessões e vaidades, cujo desfecho representa uma libertação espiritual e psíquica. Nessa leitura, o príncipe não seria apenas a figura romântica do conto, mas o símbolo de reconhecimento, integração e libertação interior — a possibilidade de reencontro da alma consigo mesma. O seu livro é bem mais moderno: ele conserva a estrutura simbólica do aprisionamento e da busca de libertação, mas esvazia a promessa clássica de salvação. A protagonista alcança lucidez — porém talvez tarde demais para que essa lucidez a salve. Entretanto, ao fechar o livro, o leitor reflete. Essa liberação se torna possível no leitor? Nesse sentido, o livro não termina nem se encerra em si mesmo, mas produz um efeito na realidade. Seria isso um presente deliberadamente pensado pela autora para os leitores, ou um resultado inesperado da própria força da literatura?
Margarida. A proposta da minha história não podia durar muito tempo sem ser desmascarada. Então liberei o leitor quando achei que já lhe prendera suficientemente a atenção. Em Cárcere privado, não pretendo me salvar, salvar narradora nem leitor. O objetivo é levar o leitor a e lê-la e achar que não foi perda de tempo.
Arendt. Foi difícil terminar de escrever esse livro? Teve dúvidas, idas e vindas, pensou finais diferentes? Quais? Escrever o livro ajudou a resolver algum tipo de conflito interno?
Margarida. Escrever o livro resolveu meu anseio de levar uma ideia adiante. Foi como terminar um bordado, ou um quadro a óleo. Há um momento em que eu me disse: " Pronto, completei o proposto do meu melhor", e disso deriva um sentimento de realização.
Arendt. E o que você gosta de fazer enquanto está escrevendo, ou quando cansa de escrever e de pensar sobre a obra, para se reabastecer de energia e renovar o espírito? Quais suas comidas favoritas. Qual sua sobremesa favorita e por quê?
Margarida. Costumava tomar café enquanto escrevia. Hoje em dia tomo chás. Quando não não escrevo gosto de ler, pois da leitura, qualquer que seja, sempre retenho o ganho de uma palavra, de uma metáfora, de um alargamento de visão. Comidas? Nada como um bom pão com manteiga, um bom arroz com feijão. De sobremesa, morangos com creme, mousse de chocolate, bananas flambadas.
Arendt. Henrik Ibsen dizia que “uma mulher não pode ser ela mesma na sociedade dos dias de hoje, a qual é exclusivamente uma sociedade masculina, com leis elaboradas por homens e com um sistema judicial que julga a conduta feminina desde um ponto de vista masculino”. (IBSEN, Henrik. “Speech to the Norwegian Women’s Rights League” (1898). In: Speeches and New Letters. New York: Viking Press, 1950). Você pondera que o ponto de vista da narradora é masculino, ou feminino, ao buscar justificar o cárcere privado de Mara Dália? Ou uma combinação de ambos? Existe diferença de gênero a ser considerada nesse processo de aprisionamento de alguém, sobre o qual você discorreu em prosa com louvor?
E aproveitando a reflexão de Cusk, sobre o fazer literário, e sobre a rejeição que algumas autoras sofreram, como Isidora Sekulić, ao narrar desde um ponto de vista feminino. Concorda com a suspeita de Cusk, de que o leitor preferiria um narrador inexistente a uma narradora feminina? Ou está convencida de que uma narradora feminina desperta mais interesse do leitor?
Margarida. Acho que as leitoras de hoje apreciam bastante as narradoras femininas, mas tenho a impressão de que os homens ainda têm alguma prevenção para com elas.
Arendt. Sobre a sua poesia presente na obra “Tempo de delação”, vemos uma atmosfera extraordinariamente coerente com a do livro Cárcere Privado. Sobressaem os deslocamentos semânticos, jogos de registro, alusões literárias, condensação imagética de alta precisão, decadentismo, psicanálise e ironia convivendo e várias miniaturas verbais. “Recolho-me dócil / Ao boudoir do meu spleen”. Encontramos também alegorias filosóficas. Em “Fora-da-lei”, o colibri que provoca um incêndio sem intenção torna-se reflexão sobre culpa, causalidade e liberdade: “Quem controla o voo das aves / Dispõe de salvo-conduto”. A sua poesia se debruça sobre o problema moral? Disso resultam por vezes os epigramas filosóficos nos seus versos?
Margarida. Sim, questões filosóficas e éticas habitam minha poesia. Em “Fora da lei” comento o caráter amoral da natureza: um pássaro derruba um avião, duzentas pessoas morrem, e daí? A humanidade cria leis com base em ideias de justiça e de valores morais, mas o que está fora da sua lei a subjuga.

Arendt. Existem também versos que habitam um universo diplomático, cosmopolita e existencial:
“No mundo a que despertenço sou turista”. A seu ver, a poesia surge da dificudlade de coincidir consigo mesma? Quais são os focos de origem da poesia no seu espírito?
Margarida. Os focos são vários. Às vezes vêm de fora: uma impressão causada por um ruído, uma visão, uma interação com algo ou alguém, um impacto ou um abalo sentido, que me pedem para ter voz. Às vezes vêm de dentro: emoção causada por uma lembrança, uma necessidade de compreensão, ou de descompressão, um impulso criativo de origem misteriosa.
Arendt. Nos versos “O que retenho de sua pessoa / Guardo no canal lacrimal”, você demonstra sofisticação intelectual sem conflito com a afetividade. Apesar disso, o uso da expressão técnica para se referir ao sentimento denota talvez necessidade de sobrevivência emocional diante da perda, deslocamento, memória, desejo, culpa, ironia… Se bem a sua ironia é leve como a pluma de Carlos Drummond de Andrade. Quais versos nesse livro você escreveu sentindo maior intensidade?
Margarida. Não tenho uma relação fácil com a escrita, escrever prosa de ficção, prosa ensaística ou versos me demanda intensidade a cada passo. Não sou uma autora expressionista de quem as palavras saem em jorros. Faulkner diz ter escrito Entanto agonizo (As I lay dying) em seis semanas, sem depois alterar uma palavra. Eu jamais conseguiria realizar esse feito. Em todo caso posso salientar que o poema “tempo de delação” que dá título ao livro, nasceu de um intenso desejo de evocar o medo de que imagens diletas daquilo que vimos e vivemos venham a desbotar ou morrer na gente pela perda de memória ou juízo, que às vezes ocorre na velhice.
Arendt. Quais seus poetas favoritos, em português?
Margarida. Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Cecília Meireles, Drummond, João Cabral, Manoel de Barros, Adelia Prado, por aí vai...
Arendt. E sobre o papel das Academias, saraus e círculos literários na vida do escritor. Como é sua rotina acadêmica, e como define o convívio e a contribuição dos seus colegas para sua obra?
Margarida. Academias de Letras ajudam autores de literatura criativa a se sentirem menos solitários, a serem incentivados e a terem a ilusão do reconhecimento. Algumas promovem enriquecimento cultural por meio de palestras e publicações.
Arendt. Por fim, Dra. Margarida, a pergunta mais importante e mais difícil. O que você faria se ganhasse cem milhões de reais na loteria?
Margarida. Abriria um centro de pesquisas históricas e literárias, um instituto de artes, bem como um ou mais presídios, em que cada preso pudesse ter sua cela digna.
Arendt. Algo mais a acrescentar? Que pergunta faria a si mesma em uma entrevista?
Margarida. Você se considera boa poeta e escritora. Valoriza a obra que escreveu?

Livros:

PATRIOTA, Margarida. Cárcere privado. Rio de Janeiro: 7Letras, 2019. 180p. – finalista do Prêmio Oceanos.
Disponível em:

PATRIOTA, Margarida. Tempo de Delação. Editora: Ibis Libris, 2019.110p.
Disponível em:


