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Os Melhores poemas sobre o amor

  • há 8 horas
  • 12 min de leitura




Compartilho com os leitores e amigos os melhores poemas sobre amor de que me lembro – sem prejuízo de que venha a mudar essa lista, descobrindo novos.


Claro, vou além do imortal Soneto de Camões, “O amor é fogo que arde sem se ver….; além do Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes; e além do Soneto de John Donne à esposa, o qual já trouxe e expliquei por que o considero uma obra do nível do Taj Mahal, singularíssimo. John Donne foi o poeta quem escreveu os versos que se tornaram o título do romance de Hemingway, “Por quem os sinos dobram”.


Um eterno giro pelo mundo em alguns poemas.


Boa leitura e feliz Páscoa!


Com carinho,


Ana Paula Arendt



A canção de amor para Shui-Sin (poema de amor mais antigo do mundo)


Bridegroom, dear to my heart,

Goodly is your beauty, honeysweet,

Lion, dear to my heart,

Goodly is your beauty, honeysweet.

You have captivated me, let me stand tremblingly before you.

Bridegroom, I would be taken by you to the bedchamber,

You have captivated me, let me stand tremblingly before you.

Lion, I would be taken by you to the bedchamber.


Bridegroom, let me caress you,

My precious caress is more savory than honey,

In the bedchamber, honey-filled,

Let me enjoy your goodly beauty,

Lion, let me caress you,

My precious caress is more savory than honey.


Bridegroom, you have taken your pleasure of me,

Tell my mother, she will give you delicacies,

My father, he will give you gifts.


Your spirit, I know where to cheer your spirit,

Bridegroom, sleep in our house until dawn,

Your heart, I know where to gladden your heart,

Lion, sleep in our house until dawn.


You, because you love me,

Give me pray of your caresses,

My lord god, my lord protector,

My Shu-Sin, who gladdens Enlil's heart,

Give my pray of your caresses.

Your place goodly as honey, pray lay your hand on it,

Bring your hand over like a gishban-garment,

Cup your hand over it like a gishban-sikin-garment


It is a balbale-song of Inanna.


(Šu-Sin, também escrito Shu-Suen, foi um rei sumério da terceira dinastia de Ur (Ur III), filho de Šulgi, que reinou entre 2029 e 1982 a.C. Tradução, de Samuel Noah Kramer, History Begins at Sumer, pp 246-247)




Cecília Meireles (1901-1964)

o amor como forma de presença, ordem interior e constância astronômica



De longe te hei de amar

– da tranquila distância

em que o amor é saudade

e o desejo, constância.


Do divino lugar

onde o bem da existência

é ser eternidade

e parecer ausência.


Quem precisa explicar

o momento e a fragrância

da Rosa, que persuade

sem nenhuma arrogância?


E, no fundo do mar,

a Estrela, sem violência,

cumpre a sua verdade,

alheia à transparência.


MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.



William Shakespeare (1564-1616):

ascensão pela lembrança, o amor como elevação súbita da miséria à transcendência.



Sonnet 29: When, in disgrace with fortune and men’s eyes



When, in disgrace with fortune and men’s eyes,

I all alone beweep my outcast state,

And trouble deaf heaven with my bootless cries,

And look upon myself and curse my fate,

Wishing me like to one more rich in hope,

Featured like him, like him with friends possessed,

Desiring this man’s art and that man’s scope,

With what I most enjoy contented least;

Yet in these thoughts myself almost despising,

Haply I think on thee, and then my state,

(Like to the lark at break of day arising

From sullen earth) sings hymns at heaven’s gate;

       For thy sweet love remembered such wealth brings

       That then I scorn to change my state with kings.



Sonnet 18: Shall I compare thee to a summer’s day?


Shall I compare thee to a summer’s day?

Thou art more lovely and more temperate:

Rough winds do shake the darling buds of May,

And summer’s lease hath all too short a date;

Sometime too hot the eye of heaven shines,

And often is his gold complexion dimm'd;

And every fair from fair sometime declines,

By chance or nature’s changing course untrimm'd;

But thy eternal summer shall not fade,

Nor lose possession of that fair thou ow’st;

Nor shall death brag thou wander’st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow’st:

   So long as men can breathe or eyes can see,

   So long lives this, and this gives life to thee.




Fernando Pessoa (1888-1935):

Amor que não se diz, o olhar que fala mais que a linguagem, amar como confusão entre eu, mundo e outro, o amor como intensificação do real




O amor, quando se revela,


O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente...

Cala: parece esquecer...


Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estão a amar!


Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,

Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…


1928

Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990).  - 92.



Amei-te e por te amar


Amei-te e por te amar

Só a ti eu não via...

Eras o céu e o mar,

Eras a noite e o dia...

Só quando te perdi

É que eu te conheci...


Quando te tinha diante

Do meu olhar submerso

Não eras minha amante...

Eras o Universo...

Agora que te não tenho,

És só do teu tamanho.


Estavas-me longe na alma,

Por isso eu não te via...

Presença em mim tão calma,

Que eu a não sentia.

Só quando meu ser te perdeu

Vi que não eras eu.


Não sei o que eras. Creio

Que o meu modo de olhar,

Meu sentir meu anseio

Meu jeito de pensar...

Eras minha alma, fora

Do Lugar e da Hora...


Hoje eu busco-te e choro

Por te poder achar

Não sequer te memoro

Como te tive a amar...

Nem foste um sonho meu...

Porque te choro eu?


Não sei... Perdi-te, e és hoje

Real no [...] real...

Como a hora que foge,

Foges e tudo é igual

A si-próprio e é tão triste

O que vejo que existe.


Em que és [...] fictício,

Em que tempo parado

Foste o (...) cilício

Que quando em fé fechado

Não sentia e hoje sinto

Que acordo e não me minto...


[...] tuas mãos, contudo,

Sinto nas minhas mãos,

Nosso olhar fixo e mudo

Quantos momentos vãos

Pra além de nós viveu

Nem nosso, teu ou meu...


Quantas vezes sentimos

Alma nosso contacto

Quantas vezes seguimos

Pelo caminho abstracto

Que vai entre alma e alma…

Horas de inquieta calma!


E hoje pergunto em mim

Quem foi que amei, beijei

Com quem perdi o fim

Aos sonhos que sonhei…

Procuro-te e nem vejo

O meu próprio desejo…


Que foi real em nós?

Que houve em nós de sonho?

De que Nós fomos de que voz

O duplo eco risonho

Que unidade tivemos?

O que foi que perdemos?


Nós não sonhámos. Eras

Real e eu era real.

Tuas mãos — tão sinceras…

Meu gesto — tão leal...

Tu e eu lado a lado...

Isto... e isto acabado...


Como houve em nós amor

E deixou de o haver?

Sei que hoje é vaga dor

O que era então prazer...

Mas não sei que passou

Por nós e acordou...


Amámo-nos deveras?

Amamo-nos ainda?

Se penso vejo que eras

A mesma que és... E finda

Tudo o que foi o amor;

Assim quase sem dor.


Sem dor... Um pasmo vago

De ter havido amar...

Quase que me embriago

De mal poder pensar...

O que mudou e onde?

O que é que em nós se esconde?


Talvez sintas como eu

E não saibas sentil-o...

Ser é ser nosso véu

Amar é encobril-o,

Hoje que te deixei

É que sei que te amei...


Somos a nossa bruma…

É pra dentro que vemos...

Caem-nos uma a uma

As compreensões que temos

E ficamos no frio

Do Universo vazio...


Que importa? Se o que foi

Entre nós foi amor,

Se por te amar me dói

Já não te amar, e a dor

Tem um íntimo sentido,

Nada será perdido...


E além de nós, no Agora

Que não nos tem por véus

Viveremos a Hora

Virados para Deus

E n'um (...) mudo

Compreenderemos tudo.


2-12-1913

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 11.


Ricardo Reis

Quer com amor, que sem amor, senesces


Quer com amor, que sem amor, senesces

Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.


s.d.

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.  - 223s.


Alberto Caeiro

Agora que sinto amor


Agora que sinto amor

Tenho interesse no que cheira.

Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.

Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.

Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.

São coisas que se sabem por fora.

Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.

Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.

Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.


23-7-1930

“O Pastor Amoroso”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994.  - 108.


Alberto Caeiro

O Amor É uma Companhia


O amor é uma companhia. 

Já não sei andar só pelos caminhos, 

Porque já não posso andar só. 

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. 

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 

Todo eu sou qualquer força que me abandona. 

Toda a realidade olha para mim

como um girassol com a cara dela no meio. 


Fernando Pessoa

No ouro sem fim da tarde morta


No ouro sem fim da tarde morta,

Na poeira de ouro sem lugar

Da tarde que me passa à porta

Para não parar,


No silêncio dourado ainda

Dos arvoredos verde fim,

Recordo.

Eras antiga e linda

E estás em mim…


Tua memória há sem que houvesses,

Teu gesto, sem que fosses alguém,

Como uma brisa me estremeces

E eu choro um bem…


Perdi-te. Não te tive. A hora

É suave para a minha dor.

Deixa meu ser que rememora

Sentir o amor,


Ainda que amar seja um receio,

Uma lembrança falsa e vã,

E a noite deste vago anseio

Não tenha manhã.




Marguerite Yourcenar (1903-1987):

o outro interiorizado como luz permanente



“Vous ne saurez jamais que votre âme voyage

Comme au fond de mon cœur un doux cœur adopté

Et que rien, ni le temps, d’autres amours, ni l’âge

N’empêcheront jamais que vous ayez été ;


Que la beauté du monde a pris votre visage,

Vit de votre douceur, luit de votre clarté,

Et que le lac pensif au fond du paysage

Me redit seulement votre sérénité.


Vous ne saurez jamais que j’emporte votre âme

Comme une lampe d’or qui m’éclaire en marchant ;

Qu’un peu de votre voix a passé dans mon chant.


Doux flambeau, vos rayons, doux brasier, votre flamme

M’instruisent des sentiers que vous avez suivis,

Et vous vivez un peu puisque je vous survis.




Não saberás jamais que tua alma viaja

Como, no fundo do meu peito, um doce coração guardado,

E que nada — nem o tempo, nem amores, nem a idade que haja—

Impedirá jamais que tenhas sido por mim amado;


Que a beleza do mundo tomou semblante do teu rosto,

Vive da tua doçura, luz da tua claridade,

E que o lago pensativo, ao fundo da paisagem posto

Me repete somente a tua serenidade.


Nunca saberás que levo a tua alma comigo

Como lâmpada de ouro a alumiar-me o caminhar;

Que um pouco da tua voz passou para o meu cantar.


Doce archote: teus raios, doce chama, amigo

Ensinaram-me os caminhos que percorreste ao vivo,

E vives mais um pouco ainda, pois eu te sobrevivo.


Marguerite Yourcenar, Les charités d’Alcippe, 1984. Tradução de Ana Paula Arendt.




Charles Ier d'Orléans (*1394-†1465):

primavera impossível, beleza que existe fora do alcance



Le Printemps


Le temps a laissié son manteau

De vent, de froidure et de pluye

Et s’est vestu de brouderie

De soleil luyant, cler et beau

Il n’y a beste, ne oyseau

Qu’en son jargon ne chant ou crie:

Le temps a laissié son manteau

De vent, de froidure et de pluye.

Riviere, fontaine et ruisseau

Portent, en livrée jolie,

Gouttes d’argent et d’orfaverie,

Chascun s’abille de nouveau.

Le temps a laissié son manteau.


A Primavera


O tempo retirou seu manto

De vento, de frieza e de chuva dura

E está vestido com bordadura

De sol luzente, claro e encanto

Não há mais besta, nem ave escura

Que em seu jargão cante agrura.

O tempo retirou seu manto

De vento, de frieza e de chuva dura.

O riacho, a fonte e o recanto

Vestem, com alegria e postura,

Gotas de prata e cinzeladura,

Cada coisa é nova um tanto.

O tempo retirou seu manto.



(Tradução de Ana Paula Arendt. Este poema foi escrito pelo poeta para a esposa, quando estava preso em uma torre; a esposa aguarda a sua soltura em convento; morreu antes de que ele fosse solto, tristemente).




Rumi (1207-1273):

união mística, desaparecer no amado



Ghazal (I am yours)


I am yours.

Don’t give myself back to me.


I have been searching for you for so long,

not knowing I was looking for myself.


You are the soul of the soul,

the place of the unseen.


Since I have known you,

I have been free of myself.


I am yours.

Don’t give myself back to me.


*


Love is a cloud

that rains pearls

upon the world.


(Rumi, Masnavi)


Ibn Arabi (1165-1240):

o amado como realidade absoluta



My beloved



Listen, O dearly beloved!I am the sought essence in the cosmos

I am the centre of the circle and its circumference,

I am the compound and the simple

I am the command descending between Heaven and Earth,

I have only created perceptions for you so that by them, you might perceive Me

So if you perceive Me, you perceive yourself.

But you cannot perceive Me through yourself.

It is through My Eyes that you see Me and yourself,

Through your eyes you cannot see Me.Dearly beloved!

How often I call you and you don’t hear!

How often I show myself to you and you don’t see!

How often I’ve become fragrance and you don’t smell Me,

And tasty food, a but you don’t taste Me!

 

What’s with you that you don’t feel me in the things you touch?

Or sense Me in sweet scents?

Why don’t you see Me? Why don’t you hear Me?Why? Why? Why?


For you My delights surpass all other delights,

And the pleasure I bring you surpasses all other pleasures.

For you I am lovelier to all loveliness

I am Beauty, I am Grace


Dearly beloved!

Love Me, and not other than Me

long for me, concern yourself with me

Don’t worry about anything other than me

Hug me, Kiss me!

Where could you find union like mine?

All that you seek is in it

And I want you for you

but you, you flee from me!


Dearly beloved!You cannot treat Me fairly,

For if you approach Me,

It is because I have approached you.

I am nearer to you than yourself,

Than your soul, than your breath.

Who among creatures

Would treat you as I do?


I am jealous of you, over you,

I don’t like to see you with others

Not even with yourself.

Be Mine, be with Me

I will be with you

as you are with Me

while you are not even aware

be for Me as you are in Me,

Though you are not even aware of it.


Dearly beloved!

Let us go toward Union.

And if we find the road

That leads to separation,

We will destroy separation.

Come! Let us go hand in hand.

Let us enter the presence of the Real.

Let It be our judge

And imprint Its seal upon our union

For ever.


From: Henri Corbin. Creative Sufism ‘Alone with the Alone: Creative Imagination in the Sufism of Ibn Arabi, p. 174-75


Nuno Júdice (1949-2024):

antecipação amorosa, o amor como expectativa que ilumina o tempo



É Isto o Amor


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti para te ver chegar: com

a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês’


Lêdo Ivo (1924 — 2012):

amor como lei do cosmos, ordem cósmica



Oceano secreto


Quando te amo

obedeço às estrelas.

Um número preside

nosso encontro na treva.


Vamos e voltamos

como os dias e as noites

as estações e as marés

a água e a terra.


Amor, respiração

do nosso oceano secreto.



 
 
 

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