A vida não lhes basta

A vida não lhes basta
Ana Paula Arendt
Noitadas regadas a whisky,
mulheres e riso.
Os papos de poder.
A mudança de realidade
Talhando artefatos.
A proximidade que
empresta o prestígio
e toma com juros sua alma.
O assunto invisível
das resistências criadas,
a fabulação do adversário
atingido sem ter visto.
As promessas de galgar,
sempre mais e mais alto,
os degraus de um céu desconhecido
até obter o topo de fazer comando.
O cheiro dos pequenos incentivos
abrindo o apetite, como acepipes
de um banquete inevitável.
Gargalhadas perante
a obediência da realidade.
Nada disto mudou a realidade.
Era tudo superficialidade
ostentada com a servidão.
Nada disso resolveu o
problema da solidão humana.
Nada disso resolveu o
problema da violência.
E eu me recordo
O quanto me divorciei de tudo aquilo.
Ao final, aquelas camas eram frias
e as risadas, ecos vazios.
Pessoas estranhas, muito estranhas mesmo
fugindo de si mesmas, anestesiadas,
que me olharam de um modo estranho
quando eu disse o final das coisas.
De repente,
cheias de pavor
das minhas entranhas…
Cheias de pavor
de que eu lhes dissesse a verdade.
Eu, o outro, agora
um objeto a ser examinado.
Não estavam realmente lá;
estavam apenas em si mesmos
alimentando o grave delírio de
superioridade e onipotência.
Pessoas violentas.
Eu os vejo agora,
repetidos tantas vezes
e em tantos lugares…
Vivendo a vida perdidos
em um sonho de subjugação,
sob o império do sucessivo,
das ambições desmesuradas.
Dizendo vida perfeita
O coração alienado de coisas apodrecendo.
A vida lá fora não lhes basta
e a vida, nunca o bastante
se despede deles.
E o povo, meu irmão
Cansado de erguer falsos deuses
Vendo a verdade, também.
Ana Paula Arendt. Verso dito em sonho.



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