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A vida não lhes basta

há 12 minutos
2 min de leitura


A vida não lhes basta

Ana Paula Arendt




Noitadas regadas a whisky,

mulheres e riso.

Os papos de poder.

A mudança de realidade

Talhando artefatos.

A proximidade que

empresta o prestígio

e toma com juros sua alma.


O assunto invisível

das resistências criadas,

a fabulação do adversário

atingido sem ter visto.


As promessas de galgar,

sempre mais e mais alto,

os degraus de um céu desconhecido

até obter o topo de fazer comando.


O cheiro dos pequenos incentivos

abrindo o apetite, como acepipes

de um banquete inevitável.

Gargalhadas perante

a obediência da realidade.


Nada disto mudou a realidade.


Era tudo superficialidade

ostentada com a servidão.


Nada disso resolveu o

problema da solidão humana.


Nada disso resolveu o

problema da violência.


E eu me recordo


O quanto me divorciei de tudo aquilo.


Ao final, aquelas camas eram frias

e as risadas, ecos vazios.

Pessoas estranhas, muito estranhas mesmo

fugindo de si mesmas, anestesiadas,

que me olharam de um modo estranho

quando eu disse o final das coisas.


De repente,

cheias de pavor

das minhas entranhas…

Cheias de pavor

de que eu lhes dissesse a verdade.


Eu, o outro, agora

um objeto a ser examinado.


Não estavam realmente lá;

estavam apenas em si mesmos

alimentando o grave delírio de

superioridade e onipotência.

Pessoas violentas.


Eu os vejo agora,

repetidos tantas vezes

e em tantos lugares…


Vivendo a vida perdidos

em um sonho de subjugação,

sob o império do sucessivo,

das ambições desmesuradas.

Dizendo vida perfeita

O coração alienado de coisas apodrecendo.

A vida lá fora não lhes basta

e a vida, nunca o bastante

se despede deles.


E o povo, meu irmão

Cansado de erguer falsos deuses

Vendo a verdade, também.


    


      

Ana Paula Arendt. Verso dito em sonho.

 
 
 

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