PROCURE POR TAGS: 

POSTS RECENTES: 

SIGA

  • Facebook Clean Grey

Em Boa Hora. A Good Timing.



Em boa hora

Fernando Marques*

A peça teatral O Constituinte, de R. P. Alencar (texto assinado sob o pseudônimo de Ana Paula Arendt), editada em 2016, se dispõe a uma tarefa ambiciosa: a de apresentar, em chave alegórica, a aventura política da Assembleia que, em 1988, entregou ao país seu novo ordenamento legal.

A própria autora explica, ao caracterizar as personagens do drama: Callista simboliza a Constituição e é “amante e musa de Affonso”; este evoca a figura de Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), senador “em que se agregam os Constituintes”. Já Porfírio, antagonista de ambos, representa “o núcleo narcísico do governante autoritário”. São eles os principais agentes na peça.

A ação conta ainda com outras personagens, como é o caso de Teotônio, Mário e Messias, ligados a Affonso. Há também os Mil Demônios, que condensam os servidores leais a Porfírio, ou o espião Jacinto, preocupado em mostrar serviço aos olhos de “ditadores ausentes e militares indispostos”.

O recurso às alegorias faz pensar nas revistas cômico-musicais que lotaram as salas no final do século XIX e na primeira metade do século XX, das quais um dos autores foi Arthur Azevedo (1853-1908). Ressalve-se que, na peça em pauta, a atmosfera tende não para a comédia, mas para o drama.

Estruturado em três seções, o texto foi escrito em versos ritmados, não necessariamente obedientes a metro e rima (as rimas comparecem ao texto, no entanto, com alguma frequência). Sob a chave da metáfora, da fantasia poética, a autora aborda não apenas a saga vitoriosa dos parlamentares de 1988, como também fala, ainda que de passagem, na condição das mulheres – que os conservadores tentam inutilmente manter presas ao passado patriarcal.

A União Brasileira de Escritores/Rio de Janeiro conferiu Menção Honrosa ao trabalho de R. P. Alencar, em concurso literário realizado em 2015. Podemos perceber nela uma escritora em pleno processo, que segue caminho para o domínio técnico e a maturidade literária. Seu livro alude, em boa hora, à legitimidade dos governantes, seriamente maltratada no Brasil dos últimos tempos. A obra celebra a possível felicidade coletiva, política, assinalando-a na forma do texto constitucional que marcou a volta à democracia.

*Fernando Marques é autor de A Província dos Diamantes (Autêntica, 2016), Com os Séculos nos Olhos (Perspectiva, 2014), bem como de outros livros e artigos sobre teatro. É doutor em Literatura Brasileira e Professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB.

A good timing

Fernando Marques, PhD*

The play for theater The Constituent, whose author R. P. Alencar signs under the pseudonym of Ana Paula Arendt, was edited in 2016, and it aims an ambitious effort: to present, in an allegoric key, the political adventure of the Assembly which in 1988 delivered to Brazil its new legal order.

The author herself explains her work, when characterizing the roles in the drama: Callista symbolizes the Constitution and she is "lover and muse of Affonso"; this character, by his turn, evokes the figure of Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), Senator around which the Constituents gathered. In the other hand, Porfirio, opponent to both, represents "the narcisic core of the despotic ruler". They are the main agents in the play.

The action also rely on other characters, as Teotonio, Mario, and Messias, attached to Affonso. There is also the character One-Thousand-Demons, who condenses the officers who are loyal to Porfirio, or to the spy Jacinto, both worried in showing off their bureaucratic accomplishments to the eyes of "absent dictators and indisposed military men".

The resource of allegories makes us think of the musical and comic pamphlets that crowded rooms at the end of the 19th century and at the first half of the 20th century, when one of their acknowledged authors was Arthur Azevedo (1853-1908). Let us remark that in this aforementioned play its atmosphere tends not to comedy, but to drama.

Structured in three sections, the text follows in rhythmic verses, not necessarily obedient to metric and rhyme (the rhymes are present in the text, nevertheless, sometimes often). By using the key of metaphor, of poetic fantasy, the author approached not only the victorious saga of the Members of the Brazilian Parliament in 1988, but also looked asquint at the women condition - which the conservative men tried uselessly to keep inside the cage of a patriarchal past.

The Brazilian Union of Writers/Rio de Janeiro conferred a Mention of Honor to this work of R. P. Alencar, in a literary award of 2015. We can notice in her a writer at full speed, who follows her path into technical proficiency and literary maturity. Her book makes an allusion, in a good timing, to the legitimacy of the rulers, seriously shaken in Brazil at recent times. Her work celebrates the possible collective, political happiness, remarking it in the form of the constitutional provisions that restored democracy.

*Fernando Marques is author of the books "The Province of the Diamonds" (Autêntica, 2016), and "With Centuries in our Eyes" (Perspectiva, 2014), as well of other books and papers on theater. He's PhD in Brazilian Literature and Professor of the Department of Scenic Arts at the University of Brasilia (UnB).




© 2023 por Armário Confidencial. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Wix Facebook page